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3 de mar. de 2024

Um Livro de 1916

 Estou recuperando um livro de Registro de Imóveis de Curitiba.

Chama-se Livro de Transcripções, com registros datados de 1916 a 1926.

Livro de Registro de Imóveis de 1916


O pobre livro passou por um "acidente", provavelmente há uns 40 anos, quando foi simplesmente perfurado e amarrado, sem qualquer restauração, reforço ou mesmo reparação das muitas folhas rasgadas. 

Folhas amarradas e partidas pela abertura forçada 


Resultado: o lado esquerdo das folhas, principalmente aquelas folhas dos primeiros e últimos cadernos, estão partidas pela abertura forçada.

Na foto, é possível ver onde as folhas foram furadas e amarradas e como estão partidas.

As folhas tiveram sua deterioração acelerada por esta desastrosa intervenção de algum "encadernador" sem qualquer técnica e sem nenhum critério.

Ou mesmo por economia, irresponsabilidade ou mera ignorância dos responsáveis pelo cartório.

Infelizmente, com a necessidade de digitalização dos livros, hoje, os livros que ainda estavam originais foram desmontados e a seguir furados e amarrados. Cometendo hoje o mesmo erro e condenando os livros a apresentarem a mesma deterioração acelerada.

Este livro foi fabricado por volta de 1900 e suas folhas apresentam esta interessante marca d'água da indústria alemã: "REGISTER GERMANIA 1896".

Register Germânia 1896
É revoltante o estado do livro.

Muito por interferência de encadernador sem  nenhuma técnica.



13 de dez. de 2011

A FUNÇÃO de cada coisa na Encadernação.

A boa técnica de encadernação tem uma série de detalhes que aparentemente têm apenas função estética. Na verdade, prestam-se exercer funções importantes, das quais depende a durabilidade e resistência da encadernação e de seu conteúdo, o livro.


I - A função do PAPEL MARMORIZADO na folha de guarda.

O papel marmorizado da forma clássica, ou seja, com uso de tintas à óleo ou esmalte, serve para isolar as folhas do livro da alta acidez do papelão e das colas que unem o livro à capa. Serve ainda como barreira natural contra umidade e pragas biológicas.


A "marmorização" obtida com tintas à base de água não cumpre essa função básica, sendo muito sensível ao aparecimento de fungos.   

O papel marmorizado esconde imperfeições do papelão, disfarça os cadarços, fios da costura e marcas deixadas pela espátula. 



II – A função da NERVURA.

Nervura é aquele relevo deixado na lombada.


A principal função das nervuras é manter a douração longe do atrito com a mesa onde o livro é aberto. 

Isso ocorre principalmente nas obras de grande tamanho e peso, que, antigamente, eram lidas ou até mesmo caligrafadas sobre uma mesa, ficando o título do livro e outras informações gravadas a ouro na lombada longe da superfície da mesa graças às nervuras em relevo. 


III – A função do CABECEADO.

O cabeceado serve como complemento à costura. Também decorrente dos livros de grande tamanho e peso, compostos de folhas de pergaminho ou de papel de muita espessura. Assim o cabeceado mantém unidas as pontas dos cadernos.


Serve para consolidação da costura.

É complementar a função de proteger o espaço entre a lombada e a capa da penetração de sujeira e insetos.


O mau cabeceado é aquele feito com fios grossos que abrem espaço entre as folhas e permitem a penetração de sujeira e umidade. 


IV – A função do corte nos cantos internos da capa.

É necessário proceder um corte de alguns milímetros nos cantos esquerdos (ou internos) da capa e da contra-capa, para prevenir contra a ação de alavanca que a abertura e fechamento do livro provoca, com deformação do papelão, mordendo o couro ou outro material de acabamento.


Em qualquer capa dura já desgastado pelo tempo, a área da capa que sempre está mais prejudicada é aquela próxima aos cantos internos perto da lombada.


V - A função do Pincel para aplicar cola


Há grande diferença entre aplicar cola com pincel ou com rolo.

O pincel aplica a cola profundamente, forçando a penetração da cola nos microporos do papel e do couro.

Microscopicamente, parecem tentáculos que penetram fundo nos poros e para isso é necessário passar o pincel diversas vezes em todos os sentidos.

Com o rolo a aplicação é superficial.

VI - A função do Carinho na encadernação

 A principal função da boa encadernação é proteger carinhosamente o livro.

Tenho visto capas grossas e materiais robustos, costuras exageradas e cabeceados grosseiros. 
Um vídeo mostrando um velho livro com a lombada sendo arredondada a martelo e depois refilado na guilhotina sem piedade, é tido como correto.
Dezenas de outros vídeos infestam o you tube com técnicas parciais e até danosas aos pobres livros.  
Cursos de encadernação de poucos dias ensinam técnicas primárias e equivocadas, com resultados ingênuos.

Algumas encadernações parecem mais uma PENITENCIÁRIA destinada a oprimir e penalizar o livro.

Uma encadernação deve complementar a proteger o livro OU QUALQUER OUTRA PEÇA encadernada.

Portanto, a interferência do encadernador será sempre carinhosa, 
evitando superfícies ásperas,

arredondando os cantos do papelão,

obedecendo a simetria nas costuras,

usando papel cartão fino e maleável na lombada,

evitando cabeceados grossos,

 deixando espaço entre a capa e a lombada 
para que o livro abra sem esforço.

Pois, se cada gesto ao encadernar não é de carinho e respeito, é apenas cruel, mercantil e grotesco.

7 de set. de 2011

O maior Livro do Mundo

O maior Livro do mundo foi o título dado à peça de propaganda apresentada no Bienal do Livro de 2011, no Rio de Janeiro.
Trata-se de uma obra impressa "medindo mais de 3 metros e pesando 1.420 kg", com paginas que devem medir uns dois metros de altura e um metro e pouco de largura.

Como qualquer pretexto é válido para esclarecer, devo afirmar que NÃO É UM LIVRO.

Um livro é constituído de folhas dobradas, que formam cadernos, que são costurados uns nos outros e encapados.
A peça em questão é apenas uma PASTA, ou seja, cada uma das enormes folhas soltas foi envelopada num enorme envelope de plástico ou acetato. A seguir, os envelopes foram presos a uma enorme capa.
Se as folhas estivessem apenas amarradas, sem nenhum envelope, ainda não seria um livro e muito menos uma pasta, seria apenas um BLOCO.
Logo, esta pasta não é um livro e não deveria ser assim considerado pelo Guinness 2011, conforme noticiado.

Mas, que seja então a Maior Pasta do Mundo.

18 de nov. de 2010

Bibliotecários Incongruentes

Por definição, o bibliotecário é um profissional de informação. Pode ler todo o capítulo da Wikipédia que não vai achar a definição romântica que se espera: a de cuidador e provedor do livro. No máximo, suas atribuições são de organizar livros.
Mas eu tenho, pessoalmente, uma impressão desagradável dos bibliotecários, resultado das incongruências entre o que são e o que deveriam ser. Entre o que tem o privilégio de aprender mas não utilizam na prática.
Tudo começou quando fui na Biblioteca Nacional. Tinha que ficar uns dias à toa no Rio de Janeiro para acompanhar o desfecho de um processo judicial e pude ficar um dia inteiro lá dentro. Fui para conhecer o setor de Encadernação.
Lugar místico, limpo e organizado, com os encadernadores trabalhando em bancadas antigas, debruçados sobre livros  que eram carinhosamente restaurados. Apresentei-me como encadernador curitibano, interessado em conhecer o atelier e aprender algumas manhas.
Carioca é único. Fui recebido com muito mais consideração do que merecia até que reclamei do quanto era difícil aprender mais sobre encadernação em Curitiba. Meu guia me disse que regularmente alguém da Biblioteca Nacional ia para Curitiba, para dar cursos de encadernação.
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Grosseiro e impertinente, disse a ele que esses cursos eram direcionados apenas a bibliotecários, sendo assim desperdiçados, pois são pessoas que nunca irão pegar um livro para encadernar.
E é a pura verdade.
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A partir desse dia, passei a analisar os livros de biblioteca que cairam em minhas mãos.
Li alguns da PUC-PR e estou lendo outros da Biblioteca do Banco do Brasil. E ambas as bibliotecas me emprestaram livros pessimamente encadernados. Nos dois casos, os livros  eram compostos de Cadernos, mas as páginas foram Furadas e Amarradas, tornando impossível abrir o livro inteiramente. É preciso ler segurando firmemente e olhar meio de lado no final das linhas da página à esquerda e no começo das linhas da página à direita. É cansativo para as mãos, que precisam segurar firme para manter o livro aberto e  para o pescoço que precisa se inclinar para acompanhar as linhas. Por azar, lia "Viva o Povo Brasileiro", do João Ubaldo Ribeiro, que não é um livro pequeno. No meio do livro,ouvi um estalo! Os fios arrebentaram e pude ler o livro sem me cansar, mas as folhas ficaram soltas.
Todos esses livros foram encapados com vulcapel fino e sem nenhuma douração, sem nome do livro e sem nome de autor, com apenas uma etiqueta de catalogação na lombada, que soltou no primeiro dia de leitura.
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O primeiro cuidado do bibliotecário deveria ser com o livro.
Ao reencadernar não jogar fora a capa original, mas conservar, mesmo sob a nova capa padronizadinha. Essa mesma que é chamada de "capa dura" e representa a mais rasteira e frágil forma de encadernar um livro.  É pela capa que imediatamente datamos o livro, pelo estilo de um dado período, pela interpretação que um artista gráfico deu à obra. Veja os livros de Saramago: todos trazem uma gravura de Arthur Luiz na capa. Algumas capas são belíssimas, como a do "Arco Íris da Gravidade" de Thomas Pynchon. Mesmo capas de livros técnicos, permitem localizar imediatamente a data de publicação da obra, pelos recursos utilizados. Poty Lazzarotto está tanto nas capas como no corpo de livros de grandes escritores brasileiros seus contemporâneos. A capa nos dá a primeira impressão sobre o livro, mesmo as péssimas capas.
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Recentemente, o CEFET-PR padronizou as capinhas dos livros pelo horroroso critério de menor preço. Agora, estão bem escondidos sob capas de mesma cor para cada área. Além disso, todos foram furados, amarrados e refilados. Por fora parece limpo, por dentro o livro está condenado. Duro de abrir, tem que ser forçado e não vai aguentar o primeiro manuseio. Já imaginou precisar de uma xerox de uma tabela ou de um diagrama? Vi pilhas de capas originais simplesmente jogadas no lixo pelo encadernador. Eu estava lá e vi.
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Realmente, não entendo os bibliotecários. Realmente, não entendem os bibliotecários.

9 de ago. de 2010

Cartorários e Documentos Públicos

 de Oswaldo Gonzales
Elaborei Normas Técnicas para dar ao Conselho Nacional de Justiça,
Cartorários, amantes de livros e a qualquer interessado padrões a ser exigidos do encadernador.
Nas Justificativas, incluí um item interessante. Conto com a compreensão dos novos cartorários sem vínculos emocionais com o acervo, para que não me culpem por expressar o resultado de minha experiência pessoal. Por outro lado, minhas atuais relações com cartorários concursados estão comprovando que, dentre eles, há alguns com genuíno e louvável interesse em restaurar e preservar o acervo que lhes foi confiado. Na ausência de um envolvimento ancestral, pode ocorrer o amor à primeira vista. Contudo, esses casos de real interesse na preservação do acervo ainda não é a regra. 
Há uma discussão na Imprensa, sempre maniqueísta e simplista, que não deve ser levada a sério,  pois aborda a questão de um ponto de vista de justiceiro e não de informador. Elege um lado, normalmente o lado do falso moralismo e do lugar comum, sem se aprofundar no verdadeiro problema, o descaso para com os documentos públicos, pois os cartorários vem e vão, mas os documentos permanecem.
Segue o texto.
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II.8.a. Continuidade e Eternidade
Segundo o novo regramento legal para sucessão de titulares de órgãos registrais, a nomeação do titular ocorre após sua devida aprovação em concurso público. Até recentemente, a titularidade era herdada, transferida pelo titular ao seu descendente direto, com endosso da autoridade legal.
Respeitando os argumentos louváveis e pertinentes que são contrários à transmissão de pai para filho, levanto a questão do “Princípio de Continuidade” de que sou testemunha em muitos casos. Por exemplo, um titular afirma que seus livros foram manuscritos por seu avô, continuados por seu pai e a ele confiados, demonstrando o forte vínculo pessoal e sentimental que mantém com seu acervo.
Percebe-se a genuína e emocionada motivação para preservar os livros, mantendo-os conservados muito mais por este valor sentimental íntimo explícito, do que pelo valor documental e histórico. Testemunhei essa atitude em muitos cartórios onde atuei.
Uma vez extinta essa forma de transmissão, adotada a nomeação por concurso de pessoas que se sucedem sem laços entre si, cresce a necessidade de formular normas precisas e padrões ideais, poupando ao titular o trabalho de zelar por detalhes técnicos que podem ser inteiramente estranhos ao seu conjunto de conhecimentos. Por outro prisma, impõem ao titular os cuidados necessários e os custos suficientes para garantir a guarda e conservação dos documentos públicos sob sua responsabilidade, sem sucumbir à tentação de reduzir custos com conseqüente sacrifício da qualidade.
Essas considerações constituem tese a ser confirmada ou refutada, não caracterizando, necessariamente, a atitude dos titulares nomeados para administração de um acervo pelo qual não tem apego pessoal, estando imbuídos de responsabilidade civil e criminal inerentes à função. Contudo, a imprevisibilidade do novo método suscita seja implantado e estimulado o “Princípio de Eternidade” , ou seja, da necessidade de adotar procedimentos que assegurem a longevidade indefinida dos documentos públicos por sua importância documental e histórica implícita.
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8 de fev. de 2010

SECANDO LIVROS MOLHADOS

Recuperação de Livros Molhados
Livros Salvos de Inundação
Secagem de Livros Oficiais 
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Melhorei esse post depois de colaborar na Revista Superinteressante,edição de Junho/2011, sobre o tema: 

Recuperação de Livros Molhados
Livros Salvos de Inundação
Secagem de Livros Oficiais 
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Com as inundações flagelando tanta gente nesse ano de 2011, resolvi dar uma repaginada nesse post, tornando-o mais prático.
 
São muitos os eventos que podem desencadear a inundação de um acervo de livros. Problemas de encanamento, ar condicionado defeituoso, goteiras e infiltração do apartamento vizinho afetam os livros de forma superficial e quase sempre de forma localizada. Contudo, as inundações que tem ocorrido em muitas regiões nesta temporada tem atingido acervos de bibliotecas e cartórios. As bibliotecas são constituídas de livros comuns que podem ser repostos, mesmo se esses livros são livros raros ou dispendiosos. Mas os cartórios guardam documentos importantes, os registros públicos únicos e insubstituíveis.
Em qualquer caso, o tempo é essencial para salvar o acervo.
A água pode causar danos desproporcionais à quantidade. Misturada a terra e sujeira, encharca o papel, devendo ser desinfetado para futuro manuseio. O bolor forma-se normalmente a uma temperatura a partir de 21ºC e umidade relativa de 65%, mas pode formar-se em menos de 48 horas depois de uma inundação.


Mas não é apenas o bolor que representa problema. Numa inundação tudo é contaminado por outras pragas, sujeira e bactérias. Mesmo na água que por acaso escorre de um aparelho de ar condicionado que funciona mal ou de uma goteira do telhado pode haver urina de rato. Assim, podem causar doenças sérias com danos à saúde e até mesmo a morte.


Portanto, em primeiro lugar, avalie com critério rígido o que TEM QUE SER RECUPERADO. É preferível PERDER UM LIVRO OU QUALQUER OUTRO OBJETO do que manuseá-lo demais, MESMO COM PROTEÇÃO. Porisso indico o congelamento: não exige muito manuseio.


Se você tiver recursos, se o material é imprescindível, como no caso de Cartórios, siga os seguintes procedimentos:


1-Parar o fluxo de água e afastar a água da zona infectada;
2-Garantir a segurança do pessoal que entra na zona inundada com água parada, usando botas impermeáveis e nunca manuseando os livros atingidos sem proteção de luva de borracha;
3-Retirar o material molhado da zona inundada de maneira ordenada;
4-Pressionar cada livro para retirar o excesso de água, guardar em engradados plásticos com empilhamento de 30 cm no máximo, se muitos, em bacias ou recipientes plásticos abertos e levar para congelamento;
4-Iniciar o processo de Congelamento ou secar o material dentro de 24 horas, com gelo, secagem à vácuo, ou à mão;


Para livros ou qualquer objeto de papel, como álbuns, documentos soltos, deve ser usado o compartimento de congelamento de um refrigerador frost-free caseiro, usualmente de -14ºC. O processo pode durar até dez dias. Existem empresas que podem ceder ou alugar espaço em suas câmaras de até -29ºC, como supermercados, distribuidores de frios e carnes, o que garante maior rapidez no processo e destruição absoluta de todos os insetos e fungos.


O ventilador pode ser usado em fotografias ou documentos soltos, desde que antes seja lavado com esponja umedecida em detergente bactericida. Em livros, não funciona, pois não evita o entumescimento (tumefação) das folhas, as folhas incham e não voltam à espessura original, ficando o livro iremediavelmente deformado e as folhas escurecidas. O pior é que, mesmo depois de seco, o livro fica realmente fedorento e ainda está contaminado. Como as fibras ficaram comprometidas o papel vai ficar quebradiço e frágil




Diplomas, gravuras, telas e documentos importantes podem ser lavados em esponja umedecida em detergente bactericida,  depois colocados entre folhas de toalhas de papel, pressionando-as levemente. Trocar as toalhas de papel até que esteja o mais seco possível e deixar secar completamente em ambiente arejado. Não deixar sob o sol, pois o papel vai amarelar por oxidação.


Para retirar manchas de oxidação, deixar em água de torneira corrente por alguns dias até branquear por ação do cloro na água.


Livros feitos de papel couchet, por exemplo, como o material de revistas, se molhados as folhas grudam umas às outras e podem ser considerados perdidos sem remédio.

Assim, é preciso agir nas primeiras 6 HORAS após a inundação. Há autores que estendem o prazo por até 24 horas, mas a ação deve ser imediata.
Ao contrário do senso comum, não deve abrir o livro ou levá-lo para o sol, nem usar secador ou ventilador.
O melhor método é o de SECAGEM POR CONGELAMENTO A VÁCUO.
O livro deve ser colocado para congelar um câmara frigorífica frost-free a -20ºC, ou mesmo num freezer que funcione no sistema frost-free, existem muitos modelos à venda. Esse sistema funciona retirando a umidade e mantendo a temperatura de congelamento.
Se encapados com tecido, podem ser empilhados diretamente. Se é encadernação com uso de vulcapel (plástico), devem ser separados por uma folha de papel para assar carnes ou mesmo por uma folha de alumínio. É aconselhável o empilhamento em colunas com espaço entre si, para evitar que os livros fiquem deformados.
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No vácuo e a menos de 0ºC, ocorre o fenômeno de SUBLIMAÇÃO, quando os cristais de gelo evaporam sem liquefazer e a umidade é retirada do ambiente.
O processo pode demorar mais de dez dias, conforme a quantidade.
Depois de secos, devem passar por desinfecção, limpeza e reencadernados, se necessário.


Se o seu acervo for atingido, procure um supermercado, um distribuidor de frios, dentre empresas que tenham câmaras frigoríficas à vácuo. Solicite auxilio ou alugue espaço nesses locais.


LEMBRE-SE: PENSE PRIMEIRO EM SUA PROTEÇÃO E SEGURANÇA. 
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OUTROS MÉTODOS
Exitem métodos para secagem de livros e  documentos molhados. Contudo, nenhum deles RESTAURA o material, pois qualquer que seja o procedimento, o material não recupera a mesma condição anterior ao evento.
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SECAGEM AO AR
Para documentos em folhas separadas, pequenos livros ou moderadamente umidos. O livro é prensado para retirar o excesso e desmontado.  As folhas são limpas,  espalhadas, cobertas com tecido ou papel toalha e submetidos a ventilação constante. Demanda muito cuidado para que não rasgue ou fique distorcido e amplo espaço para trabalho. Pela aplicação de mão de obra, é trabalho de alto custo.
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DESUMIDIFICAÇÃO
Tambem para livros moderadamente molhados. Consiste em usar máquinas de desumidificação a frio diretamente no ambiente. É o método mais precário.
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SECAGEM POR CONGELAMENTO
Usado nos livros ainda úmidos numa câmara frigorífica  Os livros precisam ser congelados ainda molhados, apertados e separados com papel de congelamento, levados à câmara frigorífica com temperatura por volta de -23 graus, para reduzir distorções. O processo leva até algumas semanas.
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SECAGEM TÉRMICA A VÁCUO
É necessária câmara especial para o processo. Consiste em submeter o livro ainda molhado e congelado a um ambiente a vácuo, com uma fonte de calor. Para materiais muito danificados pela água, é a melhor solução, mas exige ambiente especial e equipamento semelhante ao ar condicionado. Não evita tumefação e fundição do papel.
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RESTAURO E ENCADERNAÇÃO
Em todos os casos, será necessário reencadernar os livros, restaurando-os no processo, pois a água dilui as colas usadas, seja ele a orgânica e mais antiga, seja a cola branca mais moderna.
Além disso, a restauração vai desinfetar e limpar as folhas, permitindo que o livro possa ser novamente manuseado, bem como a encadernação vai proteger as frágeis folhas sobreviventes da inundação.
Todo o livro molhado fica mais frágil e é dispendioso e demorado fazer todo o restauro necessário. Por exemplo, o processo de limpeza e branqueamento é feito folha por folha, cada uma delas devendo ficar por dias debaixo de ÁGUA CLORADA CORRENTE. Sendo técnica utilizada apenas para livros raros, gravuras valiosas e documentos históricos. É impraticável quando o material comprometido é abundante mas os recursos financeiros são limitados.
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É LEITURA OBRIGATÓRIA a todos os responsáveis por documentos públicos, o "Caderno Técnico" do Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos. Ali são descritos cuidados, técnicas e procedimentos que devem ser adotados em caso de inundação.
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SALVANDO LIVROS
Tenho lido relatos de cartorários e suas providências para salvar o acervo.
Passado o desespero inicial, adotaram práticas tardias, como secar com papel absorvente, folha por folha, encadernando com técnica ligeira e outros procedimentos ingênuos apesar de utilizados por técnicos na área. Cuidado na escolha da solução! Pode ser mais ampla e simples, com menor custo e qualidade superior na encadernação, respeitando a integridade do livro. Não permita que explorem sua aflição com soluções dispendiosas.
PROCEDIMENTOS DE RECUPERAÇÃO
Os procedimentos adotados em Paraitinga, São Paulo, para os livros encharcados em inundação, obtiveram os resultados que a equipe de encadernadores havia estabelecido. Recentemente (Maio de2012), fui informado que não foram satisfatórios doponto de vista de um cartorário. 
O livro apresentado pela equipe, apresenta-se limpo, ligeiramente entumecido, tendo sido refilado para limpeza das laterais das folhas, o que é visível pelo pouco espaço de margens. A técnica utilizada para manter as folhas coesas e manuseáveis, foi a de Pasta, que consiste em PERFURAR as folhas e uni-las por parafuso. Logo, não é um Livro e nem um Bloco. A capa é de papelão cinza coberto por vulcapel, com revestimento interno apenas em papel branco, podendo ser visto um exemplar ainda sobre a mesa.
Tendo por critério a resistência do volumoso livro ao manuseio, a Pasta é frágil pelos seguintes motivos: Se guardado em pé na prateleira, os furos vão ceder, as folhas vão se apoiar diretamente na prateleira, as capas vão ficar puídas e o vulcapel vai rasgar na retirada e colocação do livro.
Qualificar o resultado obtido como "restauração", não é apropriado, pois não foram respeitadas as características originais dos livros, provavelmente dos anos de 1950 em diante, tarefa que demandaria maiores conhecimentos da equipe e que jamais seria satisfatoriamente concluida pelas limitações de material adequado às quais todos os encadernadores atuais estão sujeitos.
A técnica que eu utilizo é a de unir as folhas por serrotagem e amarração, utilizando capas tradicionais de material mais resistente, como couro e tecido, que não representam custo muito maior e dão ao conjunto (ainda não um Livro, mas um Bloco) resistência ao manuseio, preservação do conteúdo e longevidade indefinida.

18 de nov. de 2009

O LIVRO DILACERADO

 Não costumo criticar o trabalho dos outros encadernadores. Criticar é opinar sobre o trabalho alheio e apontar falhas a corrigir. Disfarçado de um vago princípio ético, meu silêncio é o desejo de que façam o pior trabalho possível, pois, quanto pior a concorrência, maior a valorização do meu trabalho.
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Além do mais, são pessoas normalmente sem maior instrução, jamais tendo lido os livros que encadernam, sem compreender o verdadeiro valor do objeto livro.
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A Tristeza é que até conhecem as mínimas técnicas corretas, mas nunca as utilizam, a não ser que o cliente exija claramente como deseja que seu livro seja tratado. Em todos os casos, encadernam com o menor custo e o menor trabalho possível.
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Mas é impossível calar ao me deparar com certos trabalhos.
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Hoje mesmo, um pobre e mutilado livro chegou às minhas mãos. É um livro de Registro de Casamentos de cartório, preenchido no ano de 1952. Mede cerca de 48 centímetros de altura, por 32 centímetros de largura e cerca de 9 centímetros de espessura nas suas trezentas folhas.
Considerando a boa qualidade do papel importado daquela época e seu intenso manuseio, podia estar em estado razoável de conservação. Normalmente, gosto de trabalhar com o material dessa época, principalmente se nunca sofreu nenhuma interferência anterior.
O processo é o de sempre, consertando todos os rasgões com papel de seda, reforçando as dobras das folhas para recosturar.
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Mas, esse pobre livro sofreu dilacerações irrecuperáveis. Um encadernador (LH Encadernações, quando ainda era ali na Alferes Poli, em Curitiba) cometeu seu trabalho bem recentemente, há uns dois anos, no máximo. Eu sei por ter estado lá e visto. Pedi que fizessem da forma correta, mas disseram que dava muito trabalho.
*
Como as dobras das folhas estavam bem desgastadas, o livro foi GUILHOTINADO bem no seu lado esquerdo, tornando únicas as grandes folhas dobradas que formam um caderno.
Em seguida, a margem esquerda foi FURADA. Como se não bastasse, errou o primeiro furo, que ficou muito perto da borda, tendo furado de novo. A seguir, simplesmente AMARROU as folhas soltas.
O que era um LIVRO composto de CADERNOS, virou um BLOCO de folhas soltas.
*
Quanto às folhas internas, nenhuma delas foi consertada ou restaurada. Minto! Algumas que estavam muito rasgadas receberam FITA DUREX.
É o pior que se faz com um documento público!
A fita plástica auto-colante é extremamente ácida.
É impossível retirá-la quando recente, sem prejudicar o texto.
No curto prazo, escurece.
Se é de qualidade razoável apenas seca com o tempo e se solta. Se é barata, torna-se gosmenta.
Todos os tipos enrolam e deformam o papel.
Deixam a fibra do local ressecada e quebradiça.
Não bastando esse erro, sequer tiveram o cuidado de pelo menos escolher o lado da folha que não tivesse nada escrito. Foram colando a fita durex sem nenhum critério e de forma abundante.
*
A capa já estava inteiramente destruída. Foi feita com papelão reciclado poroso e mole, de péssima qualidade, coberto de vulcapel, que é um plástico fino com forro de papel 56 gramas, que não se presta nem mesmo para livros formato ofício. Não havia reforço interno e estava presa ao miolo apenas por um tecido colado à lombada.
Na primeira vez em que foi colocado em pé, deve ter cedido ao peso do livro.
*
Como encadernar um livro tão mutilado?
Refazer os cadernos, colando a folha um à folha doze, a folha dois à folha onze, sucessivamente, juntando-as com uma tira de papel o mais fina possível, considerando a grossura e o peso da folha.
O problema é que são trezentas folhas, sendo necessário usar cento e cinquenta tiras que depois serão dobradas. O volume resultante da colagem das tiras causa uma diferença de uns quatro centímetros entre a lombada e a espessura normal do livro. Ou seja, a metade de sua espessura.
A lombada fica muito mais grossa, forçando o livro a sempre ficar entreaberto, facilitando a penetração de sujeira e entrada de umidade.
Deixar o livro assim? O problema é que a abertura do livro vai ser forçada, pois a área do papel ao longo da lombada já apresenta rachaduras. É um livro velho e o papel já está seco, com o mínimo uso as folhas vão se partir longitudinalmente.
*
De qualquer forma, vai demandar muito trabalho.
*
Quando insisto no estabelecimento de Normas Técnicas para Encadernação de Livros e Documentos Públicos (veja Página), meu objetivo é estabelecer padrões para todos os encadernadores, um critério para julgar um trabalho, até mesmo responsabilizar o profissional que cometa um crime semelhante ao que foi perpetrado nesse livro. O responsável final, o titular do cartório, teria como exigir que a técnica correta fosse usada.
*
Naquele dia, há dois anos atrás, quando testemunhei a desatrosa interfência nesse mesmo livro, meu primeiro impulso foi evitar a tragédia, arrancar das mãos inconseqüentes daqueles pobres encadernadores e sair correndo. Contive. Racionalizei que cada um tem o livro que merece. Que a corregedoria não está nem aí para esses detalhes. Que minhas preocupações devem ser psicopatias, reações anormais que ninguém vai entender. Então, senti um arrepio e soube com certeza que um dia aquele livro estaria em minhas mãos, para que eu salvasse o que fosse possível. E ia dar muito trabalho.
A profecia foi cumprida.
***

Outro livro a mesma época, com as folhas intactas.
 

16 de jul. de 2009

Arte Gráfica Pobre Arte


Trezentos anos depois de Gutemberg e sua pobre máquina de imprimir produzirem a fabulosa "Bíblia de 42 linhas", as artes gráficas estão em colapso. 
*
Evoluíram para o nivelamento pelo mínimo, desde 1801 com a máquina a vapor para imprimir, em 1814 com o Times londrino adotando o sistema e o papel contínuo e em 1864 a impressão a duas cores.
*
As revoluções mecânicas precedem as revoluções políticas e resultam na difusão de quaisquer idéias, os esforços para um renascimento espiritual são sufocados pela dialética marxista, que exalta a força e o império da máquina, idealizando que o homem seja livre, criativo e completo apenas na medida em que produz.
*
O mecanicismo quer ganhar tempo. Prega que o feio pode ser belo (pois é mais fácil fazer o feio) desde que seja útil. Milhões de exemplares impressos para satisfazer a gula por leitura fácil, somem as margens dos livros para jogar fora e rebarbas que sobram por todos os lados. Se o autor é popular, as letras são enormes, os parágrafos são curtos e a distância entre as linhas é imoral. Está perdida a profundidade pela extensão.
*
De vez em quando, aparecem edições cuidadas e livros bem feitos. Contudo, atrás desse aparente ressurgimento gráfico se esconde a serpente da vaidade bibliofílica do novo rico, constituindo um nova indústria sem finalidade cultural: esses livros de curta tiragem, de exemplar intonso e único, brazonado, carimbado, numerado e assinado que atingirá preços artificiais fabulosos. A impressão sobre papel colorido especialmente fabricado, com tipos pretensiosos e tintas ecológicas, produz por imitação livros intocáveis, protegidos por caixas de seda, como burgueses em seus caixões e reis em seus sarcófagos. São as edições dos Amantes do Livro, dos Bibliófilos Daqui e de Acolá, que os herdeiros oferecerão aos sebos de luxo na primeira oportunidade.
*
Nenhum livro se salva nesse caos em que nasceram os gráficos, cuja habilidade mecânica se encontra em flagrante contradição com o sentido artístico que uma verdadeira obra de arte merece.
*
Como um excelente obra literária pode ser um péssimo livro

Estou lendo "Um Campo Vasto" - Ein Weites Feld - de Gunther Grass e na perfeita tradução de Lya Luft. Um livro ótimo, apesar de exigir um bom conhecimento de detalhes da cultura germânica e conhecer Berlin como a palma da mão. Através de personagens cativantes, nos presenteia com um retrato cultural, político, econômico e social da Alemanha durante a derrubada do Muro de Berlin. 

A obra literária é muito boa e não está em questão. O problema é o livro.

Tem 616 páginas, ou 308 folhas, impresso em papel Pólen Soft 80 g/m2,  pela Divisão Gráfica da Distribuidora Record.

Essas 308 folhas não são compostas de cadernos costurados e unidos por cola, mas são FOLHAS SOLTAS simplesmente coladas, ocorrendo que o livro quebrou na página 214, apesar de todo meu cuidado em chegar ao fim da leitura e ainda ter um livro intacto.

É um péssimo livro que não resiste à primeira leitura pois foi fabricado por uma indústria gráfica que não tem qualquer compromisso com a qualidade. Uma obra dessa magnitude é para ser guardada com carinho por muitos anos e lida por muitas pessoas e até mais de uma vez. Um clássico mal feito que se desfaz em nossas mãos.

Um péssimo exemplo da indústria gráfica nacional.