9 de ago. de 2010

Clima seco e o ressecamento de papel e livros

Depois  de enfrentar primavera e verão com alagamentos e elevada umidade do ar, o inverno nos traz dias de clima seco.
Estas situações climáticas extremas produzem efeitos igualmente nocivos para o papel e algum cuidado é necessário.



Para acervos valiosos, como em museus e bibliotecas, a umidade do ar é mantida em torno de 50% graças a cuidados com isolamento do local e sistemas de condicionamento do ar diariamente calibrado por higrômetro.
Contudo, a imensa maioria dos outros livros está guardada em locais comuns, como numa estante em nossa casa, em bibliotecas públicas de grande fluxo de pessoas, em acervos particulares onde o dono prefere os livros expostos nas paredes do que protegidos em uma sala climatizada, em bibliotecas escolares que já fazem muito por simplesmente existirem, em inumeráveis situações e em salas ou armários de cartórios. Como em todos esses ambientes é essencial que o livro esteja ao alcance dos interessados, por comodidade ou praticidade, ficam permanentemente expostos a variações de umidade.
Exemplos extremos
Um livro guardado em sala com intensa circulação de pessoas, num cartório instalado em um casarão antigo de Paranaguá, porto marítimo do Paraná. Está tão úmido que seria possivel torcer e ver gotejar água. A capa de papelão com acabamento em lona está mole e solta, pois a cola orgânica antiga amolece com a umidade. Todas as folhas estão umidas, desde as iniciais até as mais internas. Há amostras de cupins em todos os estágios do inseto: ovos, larvas, cupins adultos e restos de cupins mortos.
Um livro de uma cidade do norte no Paraná está completamente ressecado, com as folhas quebradiças que se partem ao menor descuido, com quase todas apresentando pequenos rasgões na área perto das costuras onde as folhas se dobram quando o livro é aberto.
Dois exemplos extremos de livros sob condições mais ou menos estáveis. Mas essas condições podem ocorrer alternadas numa mesma região, como em Curitiba, por exemplo, onde as estações são bem distintas. Aqui, tivemos primavera e verão com muita chuva e estamos com o outono prometendo ser seco.
Não encontrei nenhum índice que meça a evaporação da celulose, seja no ambiente de umidade e temperatura ideal, seja em condições extremas. Mas a experiência aponta que um papel de media qualidade, guardado em uma estante mais ou menos ventilada, começa a apresentar sinais de oxidação em poucos anos, enquanto os efeitos da umidade ou do ressecamento já são sensíveis alguns dias depois.

Pobres Livros de Cartorio no Interior

Os pobres cartórios do interior sofrem com a falta de mão de obra especializada no restauro e conservação de seus livros oficiais.
Quando muito, dispõem de um esforçado encadernador que também faz os livros contábeis e um ou outro trabalho de monografia, quase nunca tendo oportunidade de trabalhar em livros propriamente ditos. Para todos os trabalhos, usam a mesma técnica simplória e os materiais mais frágeis. Aliás, os encadernadores comerciais das Capitais e das cidades maiores também trabalham assim.
De tempos em tempos, os cartórios recebem propostas de encadernadores de São Paulo ou Santa Catarina, oferecendo seus serviços. Conheço um caso aqui mesmo em Curitiba, na 2ª Circunscrição. Contrataram o serviço, que incluía transporte, estadia e alimentação de duas pessoas, usando dependências do próprio cartório. Imagine-se o custo e o transtorno.
Os livros foram batidos para igualar as folhas, foram furados e amarrados com linha de pesca, colada a lombada com grossa camada de cola sobre os cadernos sem restauro e um pedaço de tecido sobre tudo. A Capa foi feita de folhas duplas de papelão cinza, sem nenhum lixamento, cobertas finalmente por corvim.
Não resta nenhum deles nessa circunscrição, pois estavam caídos das capas e com as folhas partidas pela linha de pesca e refiz todo o acervo faz uns quatro anos. Mas ainda existem muitos por aí. Caros, feitos sem nenhuma técnica e frágeis.
Optar por um serviço desses traz como conseqüência a redução da vida útil do livro.
Além de precários encadernadores locais e dispendiosos encadernadores importados, a única outra saída é recorrer ao meu trabalho.
Mas, como providenciar o transporte seguro dos livros? São documentos únicos e insubstituíveis, sendo impensável pensar que possam ser perdidos.
O primeiro obstáculo é colocado pelo juiz local. Teme tirar o livro da Comarca, pois tem zelo pelo documento.
O seguinte obstáculo é a inexistência de transportadoras que ofereçam garantias totais de que o transporte será feito com cuidado, responsabilidade e eficiência. Fazem triangulações e transbordos, aumentando o risco de imprevistos. Têm a aparência de transportadoras de atacado, tratando todas as mercadorias com igual desinteresse.
O PAPEL DOS CORREIOS
Uma instância que deveria inspirar confiança absoluta é a dos Correios e do SEDEX, mas até hoje não encontrei nenhum titular de cartório que não tremesse diante dessa hipótese. Todos desconfiam dos Correios, alguns tendo tristes experiências pessoais de extravio de documentos e do péssimo estado que chegam ao destino, quando chegam.
Estou tentando obter dos Correios dados estatísticos sobre eventos de extravio, mas não acredito que minhas solicitações sejam atendidas. Uma empresa concessionária de serviços públicos costuma agir com extrema arrogância, julgando-se inamovível de sua posição. Provavelmente, não serei sequer considerado. Se, por acaso, obtiver resposta, vou receber deles uma coletânea de argumentos corporativos, típica de um organismo que se apega à mentiras que inventa e nega o que acontece no nosso mundo real.
Se, desafiando meu pessimismo, os Correios puderem oferecer argumentos que desmintam a imagem de ineficiência e possam prestar um serviço absolutamente sem falhas, serei seu maior divulgador.
Por enquanto, alguns cartorários conseguem me mandar uns livros, com sacrifício e dificuldades. Um, manda pelo prefeito da cidade que, solícito e cooperativo, traz um livro quando vem a Curitiba. Outro, aproveita uma convenção ou uma visita de família, para trazer aqueles livros mais deteriorados.
A grande maioria apenas lamenta não ter como mandar e nem a quem recorrer. Meu conselho a eles é que esperem. Não confiem o livro a nenhum respeitável encadernador. Deixem descansar os livros tão dignamente envelhecidos, contando sua história nas capas puídas e nas folhas amareladas e soltas. Um dia serão salvos, se Deus quiser.
Abaixo, minha tentativa junto aos Correios:
Caro(a) Pedro Malanski
Sua mensagem foi registrada em 13/04/2010 - 12:17 sob o código 6276682.
Agradecemos por utilizar os serviços dos Correios.
O prazo previsto para responder sua manifestação é de até 5 dias úteis.
Entretanto, informamos que poderá ocorrer comprometimento no prazo das respostas, nas seguintes situações:
- Dados incompletos no registro da manifestação;
- Quando identificada falha na prestação do serviço de objeto postado sobre registro, passível de indenização ou restituição de preços postais.
Atenciosamente,
Central de Atendimento dos Clientes dos Correios
Seu(s) questionamento(s) foi (foram):
Senhor administrador.
Realizo trabalho de encadernação e restauro de livros para cartórios de Curitiba. Tenho sido consultado por titulares de cartório do interior do Estado, mas enfrento o problema de transporte desses livros. São livros de tamanho máximo de 60 X 40 centímetros, com uns 10 cm de espessura, pesando, no máximo, 20 quilos.
De grande responsabilidade e insubstituíveis, os cartorários TEMEM CONFIAR ESSE MATERIAL AOS CORREIOS. Falam do estado que as encomendas normalmente chegam, de extravios, de temor generalizado.
Para tentar desmistificar ou esclarecer os cartorários, TENHO ARGUMENTADO que é confiável e rápido, custando pouco. Mas não tenho convencido ninguém.
Peço sua ajuda, informando-me se há alguma estatística sobre extravio ou danos de correspondência.
Se há alguma forma de convencer meus clientes de que o risco é mínimo.
Se existe alguma garantia que os Correios possam fornecer, talvez mesmo uma correspondência de nossa administração estadual que tranquilize esse público.
Se há casos em que o transporte de documentos públicos já é feito.
Tenho deixado de fazer imúmeros livros do interior e os poucos que faço chegam por ajuda de terceiros, de forma que há muitos livros precisando de minha urgente interferência.
Sendo o meu trabalho único, com utilização de técnicas clássicas e materiais nobres, realmente não há outros que possam realiza-lo.
Agradeço muito se puder dedicar um pouco de seu tempo para o assunto, em nome de tantos livros em triste condição.
Há mais informações sobre meu trabalho no BLOG: "CUIDAR DO LIVRO".
*****
Esta é uma mensagem automática. Por favor, não a responda. Caso queira contatar os Correios ou registrar uma nova manifestação, utilize os canais abaixo:
Internet: www.correios.com.br
Pesquisei superficialmente o tema "correios*reclamações*acidentes*extravio" e a quantidade de eventos  é enorme. Notíciais de hoje, dia 17 de abril, apontam que houve 850 ocorrências no PROCON de São Paulo. Uma delas, de um LUTHIER que encaminhou um instrumento de sua autoria e foi parar em outro lugar.
Já estou desistindo.

DIÁRIO DOS CORREIOS
Hoje é 23 de Abril, quase dez dia depois de minha tentativa inicial. Nenhuma resposta dos Correios.
Parece que eles se prestam mais a fazer entrega para contrabando, remédios sem receita e papéis absolutamente irrelevantes. É engraçado: uma empresa que deveria zelar, acima de tudo, pela sua credibilidade, não ser digna de confiança. Mais irônico ainda, é que podem estar pensando numa "grande campanha publicitária que resgate a credibilidade dos Correios perante a população".
Dia 27 de Abril, SILÊNCIO.
Remeti via SEDEX um livro no formato 60 X 45 cm, pesando 14 quilos, para uma cidade do interior do Paraná. Custou R$34,10, com código de rastramento.
Resolvemos acreditar na qualidade dos Correios no nosso Estado.
Dia 28 de Abril.
Recebi um livro formato 60 X 45 cm. postado ontem do interior. Chegou rápido e em perfeito estado.
Ponto para o SEDEX.
Contudo, jamais obtive resposta ao meu questionamento.

Tenho realizado inúmeros trabalhos para o interior do Paraná, e para São Paulo, capital e interior, usando o SEDEX.
Nunca houve qualquer atraso ou acidente.
 


Livros de Cartório

*
Livros inteiramente restaurados.



Todas as folhas foram reparadas e as dobras dos cadernos foram reforçadas.
O livro foi recosturado com reforços em tecido.
A capa tem lombadas e cantos em couro e espelho (parte central da capa) em tela (tecido com base de tinta latex e marmorizado em tinta esmalte).
Outros detalhes:
  • Nervuras para proteção da douração.
  • Folhas de guarda em papel marmorizado.
  • Inclusão de novos cadernos de quatro folhas, em branco, no começo e no fim do livro, para proteção das folhas oficiais.
  • Reparos com papel-seda ou japonês.
  • Nunca refilo um livro (cortar os lados das folhas), faço lixamento e pintura das laterais.
  • Uso de folhas duplas de "Papelão Couro" para as capas, mais denso do que o cinza, devidamente lixado e arredondado nas bordas, para não morder o couro.
  • Costura com fio encerado com cera de abelha, para prevenir fungos.
  • Retirada de materiais estranhos (durex, grampos, pó de borracha, etc) e limpeza.
Estes e muitos outros detalhes fazem o meu trabalho único.
O nível de sofisticação e carinho com o material não são encontrados facilmente por aí.
O preço?
Esses aí, saíram por cem reais cada um, fazendo parte de um acervo a restaurar de cerca de mil livros.
O resultado: Livros salvos da decrepitude, resistentes ao manuseio cotidiano e muito bonitos!
Modéstia para quê? "É a nulidade de todos os talentos e o talento de todas as nulidades" (A. Conte).

8 de fev. de 2010

SECANDO LIVROS MOLHADOS

Recuperação de Livros Molhados
Livros Salvos de Inundação
Secagem de Livros Oficiais 
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Melhorei esse post depois de colaborar na Revista Superinteressante,edição de Junho/2011, sobre o tema: 

Recuperação de Livros Molhados
Livros Salvos de Inundação
Secagem de Livros Oficiais 
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Com as inundações flagelando tanta gente nesse ano de 2011, resolvi dar uma repaginada nesse post, tornando-o mais prático.
 
São muitos os eventos que podem desencadear a inundação de um acervo de livros. Problemas de encanamento, ar condicionado defeituoso, goteiras e infiltração do apartamento vizinho afetam os livros de forma superficial e quase sempre de forma localizada. Contudo, as inundações que tem ocorrido em muitas regiões nesta temporada tem atingido acervos de bibliotecas e cartórios. As bibliotecas são constituídas de livros comuns que podem ser repostos, mesmo se esses livros são livros raros ou dispendiosos. Mas os cartórios guardam documentos importantes, os registros públicos únicos e insubstituíveis.
Em qualquer caso, o tempo é essencial para salvar o acervo.
A água pode causar danos desproporcionais à quantidade. Misturada a terra e sujeira, encharca o papel, devendo ser desinfetado para futuro manuseio. O bolor forma-se normalmente a uma temperatura a partir de 21ºC e umidade relativa de 65%, mas pode formar-se em menos de 48 horas depois de uma inundação.


Mas não é apenas o bolor que representa problema. Numa inundação tudo é contaminado por outras pragas, sujeira e bactérias. Mesmo na água que por acaso escorre de um aparelho de ar condicionado que funciona mal ou de uma goteira do telhado pode haver urina de rato. Assim, podem causar doenças sérias com danos à saúde e até mesmo a morte.


Portanto, em primeiro lugar, avalie com critério rígido o que TEM QUE SER RECUPERADO. É preferível PERDER UM LIVRO OU QUALQUER OUTRO OBJETO do que manuseá-lo demais, MESMO COM PROTEÇÃO. Porisso indico o congelamento: não exige muito manuseio.


Se você tiver recursos, se o material é imprescindível, como no caso de Cartórios, siga os seguintes procedimentos:


1-Parar o fluxo de água e afastar a água da zona infectada;
2-Garantir a segurança do pessoal que entra na zona inundada com água parada, usando botas impermeáveis e nunca manuseando os livros atingidos sem proteção de luva de borracha;
3-Retirar o material molhado da zona inundada de maneira ordenada;
4-Pressionar cada livro para retirar o excesso de água, guardar em engradados plásticos com empilhamento de 30 cm no máximo, se muitos, em bacias ou recipientes plásticos abertos e levar para congelamento;
4-Iniciar o processo de Congelamento ou secar o material dentro de 24 horas, com gelo, secagem à vácuo, ou à mão;


Para livros ou qualquer objeto de papel, como álbuns, documentos soltos, deve ser usado o compartimento de congelamento de um refrigerador frost-free caseiro, usualmente de -14ºC. O processo pode durar até dez dias. Existem empresas que podem ceder ou alugar espaço em suas câmaras de até -29ºC, como supermercados, distribuidores de frios e carnes, o que garante maior rapidez no processo e destruição absoluta de todos os insetos e fungos.


O ventilador pode ser usado em fotografias ou documentos soltos, desde que antes seja lavado com esponja umedecida em detergente bactericida. Em livros, não funciona, pois não evita o entumescimento (tumefação) das folhas, as folhas incham e não voltam à espessura original, ficando o livro iremediavelmente deformado e as folhas escurecidas. O pior é que, mesmo depois de seco, o livro fica realmente fedorento e ainda está contaminado. Como as fibras ficaram comprometidas o papel vai ficar quebradiço e frágil




Diplomas, gravuras, telas e documentos importantes podem ser lavados em esponja umedecida em detergente bactericida,  depois colocados entre folhas de toalhas de papel, pressionando-as levemente. Trocar as toalhas de papel até que esteja o mais seco possível e deixar secar completamente em ambiente arejado. Não deixar sob o sol, pois o papel vai amarelar por oxidação.


Para retirar manchas de oxidação, deixar em água de torneira corrente por alguns dias até branquear por ação do cloro na água.


Livros feitos de papel couchet, por exemplo, como o material de revistas, se molhados as folhas grudam umas às outras e podem ser considerados perdidos sem remédio.

Assim, é preciso agir nas primeiras 6 HORAS após a inundação. Há autores que estendem o prazo por até 24 horas, mas a ação deve ser imediata.
Ao contrário do senso comum, não deve abrir o livro ou levá-lo para o sol, nem usar secador ou ventilador.
O melhor método é o de SECAGEM POR CONGELAMENTO A VÁCUO.
O livro deve ser colocado para congelar um câmara frigorífica frost-free a -20ºC, ou mesmo num freezer que funcione no sistema frost-free, existem muitos modelos à venda. Esse sistema funciona retirando a umidade e mantendo a temperatura de congelamento.
Se encapados com tecido, podem ser empilhados diretamente. Se é encadernação com uso de vulcapel (plástico), devem ser separados por uma folha de papel para assar carnes ou mesmo por uma folha de alumínio. É aconselhável o empilhamento em colunas com espaço entre si, para evitar que os livros fiquem deformados.
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No vácuo e a menos de 0ºC, ocorre o fenômeno de SUBLIMAÇÃO, quando os cristais de gelo evaporam sem liquefazer e a umidade é retirada do ambiente.
O processo pode demorar mais de dez dias, conforme a quantidade.
Depois de secos, devem passar por desinfecção, limpeza e reencadernados, se necessário.


Se o seu acervo for atingido, procure um supermercado, um distribuidor de frios, dentre empresas que tenham câmaras frigoríficas à vácuo. Solicite auxilio ou alugue espaço nesses locais.


LEMBRE-SE: PENSE PRIMEIRO EM SUA PROTEÇÃO E SEGURANÇA. 
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OUTROS MÉTODOS
Exitem métodos para secagem de livros e  documentos molhados. Contudo, nenhum deles RESTAURA o material, pois qualquer que seja o procedimento, o material não recupera a mesma condição anterior ao evento.
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SECAGEM AO AR
Para documentos em folhas separadas, pequenos livros ou moderadamente umidos. O livro é prensado para retirar o excesso e desmontado.  As folhas são limpas,  espalhadas, cobertas com tecido ou papel toalha e submetidos a ventilação constante. Demanda muito cuidado para que não rasgue ou fique distorcido e amplo espaço para trabalho. Pela aplicação de mão de obra, é trabalho de alto custo.
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DESUMIDIFICAÇÃO
Tambem para livros moderadamente molhados. Consiste em usar máquinas de desumidificação a frio diretamente no ambiente. É o método mais precário.
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SECAGEM POR CONGELAMENTO
Usado nos livros ainda úmidos numa câmara frigorífica  Os livros precisam ser congelados ainda molhados, apertados e separados com papel de congelamento, levados à câmara frigorífica com temperatura por volta de -23 graus, para reduzir distorções. O processo leva até algumas semanas.
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SECAGEM TÉRMICA A VÁCUO
É necessária câmara especial para o processo. Consiste em submeter o livro ainda molhado e congelado a um ambiente a vácuo, com uma fonte de calor. Para materiais muito danificados pela água, é a melhor solução, mas exige ambiente especial e equipamento semelhante ao ar condicionado. Não evita tumefação e fundição do papel.
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RESTAURO E ENCADERNAÇÃO
Em todos os casos, será necessário reencadernar os livros, restaurando-os no processo, pois a água dilui as colas usadas, seja ele a orgânica e mais antiga, seja a cola branca mais moderna.
Além disso, a restauração vai desinfetar e limpar as folhas, permitindo que o livro possa ser novamente manuseado, bem como a encadernação vai proteger as frágeis folhas sobreviventes da inundação.
Todo o livro molhado fica mais frágil e é dispendioso e demorado fazer todo o restauro necessário. Por exemplo, o processo de limpeza e branqueamento é feito folha por folha, cada uma delas devendo ficar por dias debaixo de ÁGUA CLORADA CORRENTE. Sendo técnica utilizada apenas para livros raros, gravuras valiosas e documentos históricos. É impraticável quando o material comprometido é abundante mas os recursos financeiros são limitados.
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É LEITURA OBRIGATÓRIA a todos os responsáveis por documentos públicos, o "Caderno Técnico" do Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos. Ali são descritos cuidados, técnicas e procedimentos que devem ser adotados em caso de inundação.
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SALVANDO LIVROS
Tenho lido relatos de cartorários e suas providências para salvar o acervo.
Passado o desespero inicial, adotaram práticas tardias, como secar com papel absorvente, folha por folha, encadernando com técnica ligeira e outros procedimentos ingênuos apesar de utilizados por técnicos na área. Cuidado na escolha da solução! Pode ser mais ampla e simples, com menor custo e qualidade superior na encadernação, respeitando a integridade do livro. Não permita que explorem sua aflição com soluções dispendiosas.
PROCEDIMENTOS DE RECUPERAÇÃO
Os procedimentos adotados em Paraitinga, São Paulo, para os livros encharcados em inundação, obtiveram os resultados que a equipe de encadernadores havia estabelecido. Recentemente (Maio de2012), fui informado que não foram satisfatórios doponto de vista de um cartorário. 
O livro apresentado pela equipe, apresenta-se limpo, ligeiramente entumecido, tendo sido refilado para limpeza das laterais das folhas, o que é visível pelo pouco espaço de margens. A técnica utilizada para manter as folhas coesas e manuseáveis, foi a de Pasta, que consiste em PERFURAR as folhas e uni-las por parafuso. Logo, não é um Livro e nem um Bloco. A capa é de papelão cinza coberto por vulcapel, com revestimento interno apenas em papel branco, podendo ser visto um exemplar ainda sobre a mesa.
Tendo por critério a resistência do volumoso livro ao manuseio, a Pasta é frágil pelos seguintes motivos: Se guardado em pé na prateleira, os furos vão ceder, as folhas vão se apoiar diretamente na prateleira, as capas vão ficar puídas e o vulcapel vai rasgar na retirada e colocação do livro.
Qualificar o resultado obtido como "restauração", não é apropriado, pois não foram respeitadas as características originais dos livros, provavelmente dos anos de 1950 em diante, tarefa que demandaria maiores conhecimentos da equipe e que jamais seria satisfatoriamente concluida pelas limitações de material adequado às quais todos os encadernadores atuais estão sujeitos.
A técnica que eu utilizo é a de unir as folhas por serrotagem e amarração, utilizando capas tradicionais de material mais resistente, como couro e tecido, que não representam custo muito maior e dão ao conjunto (ainda não um Livro, mas um Bloco) resistência ao manuseio, preservação do conteúdo e longevidade indefinida.

22 de dez. de 2009

Encadernação Japonesa e Chinesa

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*Cuidar do Livro no IG, texto completo! 
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Para o livro chegar à forma que nós conhecemos, passou por uma gradual evolução sempre associada às matérias primas disponíveis.

Para registrar as primeiras formas de expressão gráfica, sabemos das pinturas nas paredes de rocha em locais de encontro e cavernas. À medida em que os sons foram ganhando sinais que os representavam, evoluiu o conjunto de letras do alfabeto. As tentativas iniciais foram feitas em pedaços de argila, depois em tábuas de madeira que até podiam ser ligadas entre si.

Um salto evolutivo importante foi dado 2.200 anos antes de Cristo, com a utilização do miolo do talo de junco, cortado em tiras finas, macerado em vinagre, disposto em fileiras verticais e horizontais sobrepostas e prensadas por dias para que o glúten natural da planta agisse como aderente, para fabricação do papiro. Era então enrolado e guardado numa caixa cilíndrica de couro ou cedro. Foi a primeira técnica de preservação do livro.
Evoluindo e disseminando o livro, os rolos foram ficando mais compridos e de difícil manuseio, até que passaram a ser cortados em folhas,  que eram dobradas e reunidas em grupos de quatro a
seis, costuradas na dobra e protegidas por tábuas de madeira. São as primeiras encadernações própriamente ditas.

No século II, a China começou a produzir papel para escrita com fibras de cânhamo ou de casca de árvore. Segundo os registros da "História do Período Posterior da Dinastia Han" do século V, o marquês TSai Lun (?-125) dos Han do Este (25-220 D.C.) produziu papel a partir de 105 D.C com materiais baratos - casca de árvore, extremidades de cânhamo, farrapos de algodão e redes de pesca rasgadas. Apesar de abundante no Oriente, seu uso para feitura de livros ocidentais só aconteceu séculos depois, por volta de 1.150. Diz-se que, no ano de 751 d.C.,  dois chineses foram aprisionados por árabes e revelaram o segredo da fabricação em troca da liberdade.
Apesar de inventores da mais apropriada forma para registro da expressão gráfica, os chineses não utilizam a tecnica de "encadernação", mas sim a de "blocagem", pois as folhas podem ser juntadas por colagem.

E, mesmo quando reunem as folhas em "cadernos", são amarradas.
Entre a blocagem Japonesa e a Chinesa tradicional existem apenas diferenças muito pequenas, sendo mais evidentes no acabamento da capa do que na estrutura do livro. Como na questão da equidistância dos furos de amarração.
A desvantagem desses sistema de blocagem, seja por amarração ou por colagem, é que as folhas são fatalmente dobradas no manuseio do livro, ao invés de abrirem naturalmente quando devidamente costuradas. Mesmo o papel mais resistente acaba partindo.
Esta técnica pode ter aplicação vantajosa quando usada para álbuns fotográficos, que pedem robustez e durabilidade, feitos de papel com fibras resistentes e média alcalinidade.

A técnica mais rasteira, aplicada atualmente aos livros feitos de folhas soltas impressas em computador, como em registros contábeis, cartórios, monografias, é a de furar as folhas e amarrar. Além da precariedade daestrutura, pois os furos amplos fazem o miolo do livro ficar deformado e cair, a abertura sempre será forçada, comprometendo a integridade do papel.

Logo, o termo "encadernação" não deve ser utilizado para essas técnicas, pois os cadernos não são costurados em cadeia para constituir o livro.

23 de nov. de 2009

Contaminação de Bibliotecas por Agentes Tóxicos

Outros títulos são adequados para esse post:

Uso de Inseticidas em Livros.

Uso de BHC e DDT em Bibliotecas.

Efeitos da Ignorância nos Acervos Culturais.

Incidência de Câncer em Cartorários.

Todos seriam necessários para atrair a atenção dos administradores de acervos públicos e donos de biblioteca para um problema grave e de conseqüências letais para a saúde.
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Fui alertado para a incidência desse problema por Deolinda Taveira, que é conservadora e restauradora de bens culturais em Goiás. Antes disso, tive uma desagradável experiência comprovada quando restaurava os livros do Registro de Imóveis de Paranaguá, sentindo efeitos de intoxicação ao manusear aquele material. Em outros acervos onde atuei, apenas desconfio que estavam contaminados, pois os efeitos foram mínimos. Por trazer os livros ao atelier, não me exponho ao ambiente geral onde estão armazenados.
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Pois Deolinda me convoca para contribuir na solução do dilema de livros contaminados por BHC e DDT, pesticidas largamente usados entres os anos 50 e 70 para combate às pragas na lavoura, na criação animal e até mesmo no ambiente doméstico. Era tido como produto químico salvador e panacéia para todas as pragas. Porém, revelou-se extremamente tóxico e altamente cancerígeno.
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Expor-se a ele superficialmente, causa irritação de mucosas, na pele, com dores de cabeça e vômito.
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Exposição prolongada causa destruição dos tecidos e câncer.
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Deolinda me manda reportagem sobre a Sra. Maria Thereza Böbel, escritora e
historiadora de Santa Catarina, que contraiu câncer ao freqüentar o Arquivo Histórico de Joinvile, onde foi usado BHC e DDT até 1985, para combate às pragas, conforme confirmado pelo Instituto Adolfo Lutz. Pois essa guerreira valorosa soube sobreviver aos danos à sua saúde, sendo culta o suficiente para denunciar o fato. Dezenas de outros freqüentadores e funcionários sentiram os efeitos do envenenamento, até o fechamento da instituição.
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Um trecho da entrevista:
PP - E o Arquivo Histórico, por que fechou?
Maria - Está fechado porque, em setembro de 2002 as moças que trabalham lá passaram mal. O acervo fica na sala de cima, a central de ar estava queimada há muito tempo e não tem servente para fazer a limpeza no local. É um calor terrível lá em cima, tem muito pó. Sem ventilação, as meninas passaram mal e todas apresentaram os mesmos sintomas, como dor de cabeça e vômito. Foram parar no ambulatório da prefeitura e foi constatado intoxicação. Nessa mesma época aconteceu aquele problema no meu exame de sangue, embora eu estivesse afastada porque não estava boa. Foi ai que relacionei a doença ao que estava acontecendo no Arquivo. Com esse fato da intoxicação, surgiu a história de ter veneno lá dentro. Aí meu marido falou: no arquivo tem veneno (BHC). A Vigilância Sanitária lacrou o Arquivo. O laudo do livro mandado para São Paulo constatou que o local está contaminado por BHC e DDT. E os dois são cancerígenos. O médico falou que meu câncer tinha pelo menos quinze anos e eu trabalhei dezoito no Arquivo. O BHC era passado até 1985, para evitar cupim, quando o Arquivo funcionava junto a Biblioteca Pública. Por ordem do antigo diretor, senhor Schneider, um funcionário passava o veneno depois que íamos embora, mas não usava máscara. No outro dia, reclamava de enjôo. O diretor não queria que os livros fossem inutilizados pelos cupins e não tinha idéia do mal que estava fazendo.
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Deolinda pesquisa fundo e me manda também a Reportagem de Paulo Bessa, “Cidade dos Meninos”, leitura obrigatória com informação importante sobre contaminação tóxica, descrevendo a dificuldade para resolver o problema da permanência de BHC, DDT e outros organoclorados em ambientes públicos.
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Vou transcrever aqui, pois ele contextualiza perfeitamente o problema, mas o link está disponível na íntegra:
“É um problema silencioso que afeta gente pobre - as maiores vítimas das incúrias ambientais praticadas diariamente neste país. Os casos de contaminação por poluentes orgânicos persistentes dão poucos dividendos na mídia e não rendem fotos espetaculares em primeiras páginas. Falarei da Cidade dos Meninos no município de Duque de Caxias (RJ). Lá ocorreu uma situação típica, pois mistura uma série de ingredientes que, em conjunto, formam uma tragédia ambiental autêntica. Não aquelas que só existem na mente dos apologistas do fim do mundo, dos modernos cavaleiros do apocalipse. Não são danos imaginários, ou danos à Borboleta Monarca. São danos reais, causados a pessoas reais – Fleisch und Blut - que, por serem pobres e sem maiores apelos para os “radicais chiques”, permaneceram inteiramente desprotegidos por cerca de 50 anos. E, como veremos, mesmo quando uma “solução” se avizinha, ela não deixa de trazer a marca da discriminação que os pobres sofrem nesta Terra Brasilis.
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O caso demonstra, inclusive, que em termos ambientais a solução de problemas em um determinado momento pode ser o próprio problema em outro, o que ressalta a importância de que novos produtos sejam corretamente avaliados. Até o lançamento do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, os organoclorados eram considerados excelentes produtos para combater pragas e insetos, ajudando na redução de doenças e aumentando a produtividade agrícola. Entre aqueles aplicados no combate às pragas, reinava absoluto o DDT. Hoje, o produto está banido graças à Convenção sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (POPS) de Estocolmo firmada por 90 países, inclusive o Brasil (1). A ocasião teve como objetivo a proibição de produção e uso de 12 substâncias orgânicas tóxicas (Aldrin, clordano, Mirex, Dieldrin, DDT, dioxinas, furanos, PCBs, Endrin, heptacloro, BHC e toxafeno). No caso da Cidade dos Meninos a contaminação foi devida ao chamado pó de broca.
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A história é a seguinte: entre os anos 1950 e 1962, o Instituto de Malariologia, órgão do então Ministério da Educação e Saúde, operou uma planta industrial para a produção de Hexaclorociclohexano (HCH) e a manipulação de outros compostos organoclorados, como o diclorodifenilcloroetano (DDT) em oito pavilhões pertencentes à Fundação Abrigo Cristo Redentor, na Cidade dos Meninos. A área total é de mais de 19 milhões de metros quadrados. Aqui, cabe uma pausa para que o leitor saiba o porquê da denominação Cidade dos Meninos: tratava-se de um “colégio interno” para crianças pobres, “carentes”, “excluídas” como se diria de uma forma elegante, politicamente correta e à la mode. Como existiam pavilhões desocupados no local, decidiram produzir ali organoclorados. A típica “idéia de jerico”. Algum burocrata da época deve ter achado que seriam diminuídos custos de produção e coisas do gênero. E assim foi feito.
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Como a CPMF, as instalações seriam utilizadas “provisoriamente”. O objetivo do governo era atingir a auto-suficiência na produção de pesticidas para controle de endemias transmitidas por vetores - malária, febre amarela e doença de Chagas. Em função de dificuldades econômicas causadas pelo encarecimento dos custos para a fabricação do HCH, a fábrica foi sendo desativada. De acordo com a mentalidade prevalente na época, nenhum procedimento para encerrar seguramente as atividades produtivas foi adotado. Pelo contrário, a produção remanescente permaneceu estocada ao ar livre nas antigas dependências da fábrica, ou seja, no pátio do colégio.
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Mas - desgraça pouca é bobagem - como sabem todos os “condenados da terra”. Já que a comunidade local era pobre e desinformada, pegou o produto que estava estocado no pátio da antiga fábrica e começou a vendê-lo para faturar uns trocadinhos. Na década de 80, constatou-se que na feira de Caxias, além de tráfico de animais, existia a venda clandestina de pesticida – a produção de pó de broca que ficara abandonada no pátio do orfanato-fábrica. Quando as autoridades públicas se deram conta da questão, em fins da década de 80, ainda sobravam cerca de 40 toneladas de produto tóxico do local para serem retirados. Como manda a regra e a prática administrativa brasileira, criou-se uma comissão e instaram-se infindáveis debates para saber se a questão era federal, estadual ou municipal. Quase 30 anos já tinham passado.
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No ano de 1990, o Ministério Público do Rio de Janeiro, solicitou que o Ministério da Saúde providenciasse a desocupação da área onde se localizava a antiga fábrica. A comunidade local era composta por: menores internos, funcionários da Fundação e do Instituto de Malariologia, que desde 1962 estavam expostos aos produtos tóxicos. Em 1991, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tornou públicos os resultados de estudos clínico-laboratoriais que haviam realizado em 43 adultos e quatro crianças residentes em um raio de 100 metros do local da fábrica, nos quais foram encontrados no sangue dos amostrados níveis 65% superiores à concentração do HCH presente no grupo controle (indivíduos não expostos), porém sem correlação com patologias. Em 1993, o juízo da Infância e da Adolescência de Duque de Caxias determinou a interdição das atividades da Fundação Abrigo Cristo Redentor e a imediata remoção dos menores. Em 1996 a Fundação teve suas atividades encerradas. Isso, entretanto, não significou a total retirada de pessoas da área, pois muitos antigos funcionários permaneceram no local e lá estão até hoje.
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No dia 8 de setembro de 1993 foi firmado Termo de Compromisso de Ajustamento de Condutas e de Obrigações (TAC) entre o Ministério Público Federal, o Ministério da Saúde, o Ministério do Meio Ambiente, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro (Feema), a Legião Brasileira de Assistência, a Fiocruz, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e a prefeitura de Duque de Caxias. Mas o TAC, ao que parece, não conseguiu solucionar o problema mais grave: a contínua ocupação do local e, conseqüentemente, o estado contínuo de risco de contaminação.
A Cidade dos Meninos tem uma população residente em imóveis pertencentes à União de 1.346 pessoas, constituindo 382 famílias, compostas principalmente por funcionários da ativa e aposentados do Ministério da Previdência e Assistência Social - MPAS (ou órgãos já extintos) e seus familiares. Somente em 1995 deu-se início a um processo de descontaminação do solo. Apesar disso, não foi eficaz, como reconhecido pelo próprio Ministério da Saúde (2). “Subseqüentemente à tentativa de remediação com cal, constatou-se, por meio de alguns estudos que analisaram amostras do solo local, que a referida tentativa não foi eficaz para promover a remediação e que, inadvertidamente, acabou resultando na formação de outras substâncias tóxicas decorrentes de reações químicas dos compostos organoclorados com cal”. Cabe a pergunta: havia condição de prever o resultado das reações químicas que seriam geradas pela remediação?
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No ano de 1997 foi proposta uma ação civil pública em face da União Federal, buscando dar uma solução judicial para o problema. Em função da Ação Civil Pública nº 97.0104992-6, movida pela Procuradora da República Geisa de Assis Rodrigues, em tramitação perante a MM 7ª Vara Federal da Seção Judiciária do Rio de Janeiro, o Poder Executivo encaminhou ao Legislativo o Projeto de Lei nº 3034/2004 (3) - sete anos após a propositura da ação - que “autoriza a União a conceder indenização por danos morais aos ocupantes de imóveis residenciais a ela pertencentes, na localidade denominada “Cidade dos Meninos“, que tenham sido expostos a compostos organoclorados”. O PL foi encaminhado aos 02/03/2004, estando há mais de um ano parado na Comissão de Trabalho e Serviço Público da Câmara dos Deputados. Espera-se que o relator acelere as providências para a aprovação final do PL.
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O ministro da Saúde Humberto Costa, em atitude de coragem cívica pouco vista nos administradores brasileiros, expressamente reconhece que: “a área ocupada é de propriedade da União, inexistindo qualquer título de posse que garanta a sua ocupação pelos moradores, sendo certo, ainda, que eventual ação de reintegração de posse implicará em demorado processo judicial que só iria agravar a situação dos habitantes da Cidade dos Meninos, uma vez que estariam expostos aos compostos organoclorados por tempo demasiadamente indefinido. Em outra vertente, mesmo que sejam adotadas medidas judiciais visando à desocupação da área, o argumento de que a permanência das pessoas na região apresenta risco à saúde, iria ocasionar a incômoda situação de colocar ao desabrigo mais de 1.300 pessoas. Em outras palavras, além da exposição aos compostos organoclorados, os moradores também ficariam desabrigados. Os estudos existentes são suficientes para se concluir que a contaminação ambiental em Cidade dos Meninos é extensa, tendo sido a área foco principal a fonte de contaminação por pesticidas que hoje se encontram dispersos na região, tornando a área de risco para a saúde humana e que as evidências da existência atual de vias de exposição humana às substâncias tóxicas, agravadas pelas características de ocupação rural da região e o modo de vida da população, recomendam providências no sentido de viabilizar a retirada dos moradores da forma menos traumática possível. Para alcançar esse desiderato, afigura-se mister e imperioso que os moradores da Cidade dos Meninos, que estiveram expostos aos compostos organoclorados, sejam indenizados pelos possíveis efeitos deletérios a sua saúde. Ainda que inexista qualquer responsabilidade da União em custear novas moradias aos habitantes da Cidade dos Meninos, a responsabilidade do Governo Federal emerge do fato de ter abandonado, sem as devidas precauções, toneladas de produtos organoclorados ao ar livre, sem que tomasse as necessárias providências para que o produto não fosse livremente manuseado por pessoas desavisadas. (4)”
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Os valores indenizatórios cogitados pelo PL, embora não sejam irrisórios, não chegam a admirar em razão da duração e da extensão do problema e de suas conseqüências para a população local. Há a previsão de R$ 10.000,00 por indivíduo, com um mínimo de R$ 50.000,00 por família. Trago o seguinte dado para reflexão: O jornal Folha de São Paulo, edição de 20 de março de 2005, demonstra que o valor médio das indenizações pagas a título de anistia política para os anistiados é de R$ 313.000,00, valor bem superior ao proposto no PL.”
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Uma reportagem ilustra a presença dos pesticidas no cotidiano.
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Artes
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Sexta-feira, 24 de julho de 2009
Dois séculos de memória
O cheiro de BHC exala com força quando o livro contábil de um antigo cartório da cidade é aberto sobre balcão para uma consulta corriqueira. Quantas vezes o volume de 80 por 40 centímetros e uns 10 quilos de peso, com capas duras de papelão e cantoneiras de metal já não foi aberto desde 1932, (aqui há um erro na reportagem, pois esses livros são regularmente consultados) quando suas anotações foram postas ali, e o cheiro do veneno agrícola que hoje nem mais é permitido no Brasil ainda pega muita gente desprevenida coçando o nariz? Bastava um filetinho no centro do calhamaço que fungo algum prosperaria entre as páginas recobertas com tinta nanquim, cuidadosamente preenchidas numa caligrafia tão cuidadosa e simétrica que parece ter saído de uma aula de educação artística.
O livro de escrituras fiscais não é o mais antigo nem o mais interessante. É apenas um entre os quase 200 mil documentos que atualmente compõem o acervo do Arquivo Histórico Municipal de Franca "Capitão Hipólito Antônio Pinheiro" e que hoje completa 20 anos de criação.
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Existem outras e mais referências que tem contribuído para o esclarecimento da população e para a tomada de atitude de todos os responsáveis pelos acervos públicos e particulares, como o material da Universidade Federal Fluminense, publicado na Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente.
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A minha resposta a Deolinda, para solução do problema prático, foi a seguinte:
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É doloroso saber da amplitude do problema. A ignorância ou a questão econômica agrária acima do bem estar da população, que reinava nos anos 60 e 70, é injustificável. Mas lamento informar que outros defensivos estão sendo usados neste momento por todo lugar. Tão danosos à saude humana e inúteis no combate às pragas quanto o BHC e DDT. São os piretróides e organoclorados conhecidos como K-Otrine, Bolfo, Audrex, vendidos livremente em qualquer lugar e largamente usados. Talvez eficientes no combate a pragas que atacam animais e próprios para uso em ambientes laváveis, são inúteis contra pragas de biblioteca e seu efeito tóxico residual tem duração indefinida. É como usar metralhadora para matar mosca: os efeitos colaterais são inexoráveis.
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A maior praga ainda é a intervenção humana desastrosa. Quando guardamos livros em ambientes inóspitos, utilizamos produtos tóxicos e manuseamos sem critério, causamos danos maiores do que qualquer cupim.
Somente limpeza protege livro.

Ainda defendo o seguinte processo:
1-Retirar os livros do ambiente contaminado, pois é no ambiente e nas instalações que está a maior quantidade de resíduos tóxicos.
2-Lavar, restaurar, substituir o madeiramento ou voltar a armazenar os livros em outro local de alvenaria e azulejo, arejado e iluminado.
3-Aspirar a poeira e resíduos superficiais dos livros.
4-Selecionar os livros por seu valor histórico/estético.
5-Separar o acervo pelo estado de conservação, em grupos, classificando-os pelo tipo de agente causador (umidade, praga biológica, contaminação tóxica, fragmentação, etc).
6-Eleger os livros representativos que serão preservados para consulta e manuseio.
7-Reencadernar estes exemplares, sempre em ambiente arejado e amplo, com proteção para as mãos e rosto. Separar capa de miolo. Refazer a capa, ou restaurar se possível, sempre preservando cararteristicas da capa original, como etiquetas e marcas de fabricante. Limpar as folhas com trincha e pó de borracha de apagar.Consertar as folhas do miolo, usando materiais e colas alcalinas. Recosturar o miolo, reforçar a lombada, lixar e pintar ou (em ultimo e extremo caso) refilar as laterais.
8-Apenas limpar e higienizar outros livros de menor interesse ou extremamente comprometidos, para serem guardados em embalagens plásticas individuais e manuseados somente com a proteção adequada por pessoal técnico treinado.
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É necessário trabalhar ao ar livre ou em ambiente sob exaustores que eliminem rapidamente o pó.
Vê-se que a tarefa demanda recursos e muita mão de obra qualificada. Não compreendo a atitude de administradores públicos e titulares de cartório que NÃO TEM NEM O CUIDADO DE ATENDER SEQUER AOS PRIMEIROS TRES ITENS ACIMA. 
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Como digo sempre, "pode jogar fora esses computadores, essa decoração, esses balcões. Só os livros são insubstituíveis, pois contém a história dinâmica de nossa sociedade e são documentos públicos sobre os quais vocês têm toda responsabilidade",

18 de nov. de 2009

O LIVRO DILACERADO

 Não costumo criticar o trabalho dos outros encadernadores. Criticar é opinar sobre o trabalho alheio e apontar falhas a corrigir. Disfarçado de um vago princípio ético, meu silêncio é o desejo de que façam o pior trabalho possível, pois, quanto pior a concorrência, maior a valorização do meu trabalho.
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Além do mais, são pessoas normalmente sem maior instrução, jamais tendo lido os livros que encadernam, sem compreender o verdadeiro valor do objeto livro.
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A Tristeza é que até conhecem as mínimas técnicas corretas, mas nunca as utilizam, a não ser que o cliente exija claramente como deseja que seu livro seja tratado. Em todos os casos, encadernam com o menor custo e o menor trabalho possível.
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Mas é impossível calar ao me deparar com certos trabalhos.
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Hoje mesmo, um pobre e mutilado livro chegou às minhas mãos. É um livro de Registro de Casamentos de cartório, preenchido no ano de 1952. Mede cerca de 48 centímetros de altura, por 32 centímetros de largura e cerca de 9 centímetros de espessura nas suas trezentas folhas.
Considerando a boa qualidade do papel importado daquela época e seu intenso manuseio, podia estar em estado razoável de conservação. Normalmente, gosto de trabalhar com o material dessa época, principalmente se nunca sofreu nenhuma interferência anterior.
O processo é o de sempre, consertando todos os rasgões com papel de seda, reforçando as dobras das folhas para recosturar.
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Mas, esse pobre livro sofreu dilacerações irrecuperáveis. Um encadernador (LH Encadernações, quando ainda era ali na Alferes Poli, em Curitiba) cometeu seu trabalho bem recentemente, há uns dois anos, no máximo. Eu sei por ter estado lá e visto. Pedi que fizessem da forma correta, mas disseram que dava muito trabalho.
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Como as dobras das folhas estavam bem desgastadas, o livro foi GUILHOTINADO bem no seu lado esquerdo, tornando únicas as grandes folhas dobradas que formam um caderno.
Em seguida, a margem esquerda foi FURADA. Como se não bastasse, errou o primeiro furo, que ficou muito perto da borda, tendo furado de novo. A seguir, simplesmente AMARROU as folhas soltas.
O que era um LIVRO composto de CADERNOS, virou um BLOCO de folhas soltas.
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Quanto às folhas internas, nenhuma delas foi consertada ou restaurada. Minto! Algumas que estavam muito rasgadas receberam FITA DUREX.
É o pior que se faz com um documento público!
A fita plástica auto-colante é extremamente ácida.
É impossível retirá-la quando recente, sem prejudicar o texto.
No curto prazo, escurece.
Se é de qualidade razoável apenas seca com o tempo e se solta. Se é barata, torna-se gosmenta.
Todos os tipos enrolam e deformam o papel.
Deixam a fibra do local ressecada e quebradiça.
Não bastando esse erro, sequer tiveram o cuidado de pelo menos escolher o lado da folha que não tivesse nada escrito. Foram colando a fita durex sem nenhum critério e de forma abundante.
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A capa já estava inteiramente destruída. Foi feita com papelão reciclado poroso e mole, de péssima qualidade, coberto de vulcapel, que é um plástico fino com forro de papel 56 gramas, que não se presta nem mesmo para livros formato ofício. Não havia reforço interno e estava presa ao miolo apenas por um tecido colado à lombada.
Na primeira vez em que foi colocado em pé, deve ter cedido ao peso do livro.
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Como encadernar um livro tão mutilado?
Refazer os cadernos, colando a folha um à folha doze, a folha dois à folha onze, sucessivamente, juntando-as com uma tira de papel o mais fina possível, considerando a grossura e o peso da folha.
O problema é que são trezentas folhas, sendo necessário usar cento e cinquenta tiras que depois serão dobradas. O volume resultante da colagem das tiras causa uma diferença de uns quatro centímetros entre a lombada e a espessura normal do livro. Ou seja, a metade de sua espessura.
A lombada fica muito mais grossa, forçando o livro a sempre ficar entreaberto, facilitando a penetração de sujeira e entrada de umidade.
Deixar o livro assim? O problema é que a abertura do livro vai ser forçada, pois a área do papel ao longo da lombada já apresenta rachaduras. É um livro velho e o papel já está seco, com o mínimo uso as folhas vão se partir longitudinalmente.
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De qualquer forma, vai demandar muito trabalho.
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Quando insisto no estabelecimento de Normas Técnicas para Encadernação de Livros e Documentos Públicos (veja Página), meu objetivo é estabelecer padrões para todos os encadernadores, um critério para julgar um trabalho, até mesmo responsabilizar o profissional que cometa um crime semelhante ao que foi perpetrado nesse livro. O responsável final, o titular do cartório, teria como exigir que a técnica correta fosse usada.
*
Naquele dia, há dois anos atrás, quando testemunhei a desatrosa interfência nesse mesmo livro, meu primeiro impulso foi evitar a tragédia, arrancar das mãos inconseqüentes daqueles pobres encadernadores e sair correndo. Contive. Racionalizei que cada um tem o livro que merece. Que a corregedoria não está nem aí para esses detalhes. Que minhas preocupações devem ser psicopatias, reações anormais que ninguém vai entender. Então, senti um arrepio e soube com certeza que um dia aquele livro estaria em minhas mãos, para que eu salvasse o que fosse possível. E ia dar muito trabalho.
A profecia foi cumprida.
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Outro livro a mesma época, com as folhas intactas.
 

21 de out. de 2009

BEM VINDO O E.BOOK


Com a abertura do Kindle
e a anunciada livraria on-line do Google,
editores acham que o sucesso do formato é questão de tempo.
Frankfurt - O inglês Richard Charkin, diretor executivo da editora Bloomsbury, é um homem bonachão, que arranca gargalhadas com quase tudo o que fala. Du­­rante um encontro sobre o futuro do e-book (que atraiu o dobro de pessoas em relação à capacidade do espaço designado pelos organizadores da Feira de Frank­furt), ele conseguiu ser sério pelo menos uma vez: “Neste Natal, duvido que alguém vá gostar de receber um livro eletrônico, preferindo ainda o formato no pa­­pel. Mas não sei como será no pró­­ximo ano.”
Como era esperado, o livro di­­gital atraiu pequenas multidões quando foi discutido. E o encontro sobre o tema em Frankfurt re­­­cebeu um upgrade com o anún­­cio da empresa Google, que planeja lançar uma loja on-line de livros eletrônicos de qualquer dispositivo com um navegador da web, amea­­­­çando o crescente mercado de leitores dominado pelo Kin­dle, da Amazon. O projeto pretende lançar edições no primeiro semestre do próximo ano, oferecendo inicialmente cerca de meio milhão de e-books em parceria com as editoras com as quais já negociou os direitos digitais. “Não estamos focados em apenas um tipo de suporte eletrônico”, disse Tom Turvey, diretor de Parcerias Estratégicas do Google, em uma coletiva de im­­prensa em Frankfurt.

Os boatos sobre uma loja eletrônica de livros by Google eram antigos e persistentes, e cresciam à mesma velocidade com que a Amazon vendia seus aparelhos Kindle. Mas o que a empresa anunciou é bem diferente do modelo de negócios que turbinou as vendas do Kindle e de outros aparelhos do gênero, como os leitores da Sony. Os livros vendidos pelo Google não serão copiados para o dispositivo do usuário, mas serão mantidos na internet – “na nuvem”, para usar o conceito da moda, o cloud computing.
O que estará à venda é o direito de acesso ao livro, não o arquivo em si.

Isso significa que eles poderão ser lidos não apenas por dispositivos especiais de leitura, mas por qualquer máquina equipada com um browser para acesso à rede. Pode ser um leitor de ebooks, mas também um celular, um notebook ou tablet, um desktop e até a sua geladeira (desde que ela rode o Explorer, Firefox, Safari, Chrome ou outros do gênero). Por isso o anúncio provocou tanto frisson. Se dispositivos como o Kindle colocavam em xeque o gigantismo das bibliotecas, já que um único aparelho poderia armazenar centenas de exemplares, a novidade é uma ameaça até para essas maquininhas. Está, portanto, cada vez mais difícil prever o futuro da indústria editorial.

O anúncio veio uma semana depois de a Amazon ter confirmado que vai liberar o uso do Kin­dle para mais de cem países além dos Estados Unidos, elevando sua posição de liderança em um mercado pequeno, mas de crescimento rápido, em que os seus concorrentes incluem o Sony e-Reader. “São decisões importantes, pois o consumidor ainda não sabe como escolher”, comentou Ronald Schild, diretor da empresa de marketing MVB, que participou do debate ao lado de Richard Charkin. Mas, ele acredita que a indecisão logo vai terminar. “Hoje, com nossa rotina dominada por aparelhos eletrônicos, as pessoas leem mais textos em meios eletrônicos do que em papel”, observou Andrew Savicas, vice-presidente da O’Reilly Media, editora norte-americana cujo fundador, Tom O’Reilly, cravou o termo Web 2.0.

Direitos autorais

Os números confirmam uma leve transferência para o mercado editorial – segundo a empresa de pesquisas Forrester, cerca de 3 milhões de leitores digitais serão vendidos nos Estados Unidos, contra uma previsão inicial de um milhão, um au­­mento favorecido por preços mais baixos, va­­riação no conteúdo e melhor dis­­tribuição. O problema mais crucial continua sendo a discussão sobre direitos autorais. Contra as reclamações de que vai disponibilizar livros fora de catálogo mas cujos direitos ainda persistem, o Google rebateu, afirmando que a versão eletrônica abrirá novas possibilidades comerciais para a obra. “Esse assunto é o mais delicado nessa história”, co­­mentou a agente literária Lúcia Riff.

Apesar de o mercado brasileiro ainda estar ligeiramente distante do mundo digital, ela contou que já acrescenta adendos aos contratos de seus autores (e ela edita escritores do naipe de Luis Fernando Verissimo) in­­cluindo o formato e-book. “É preciso fazer uma adaptação, ainda com o mercado incerto.”

Finalmente no Brasil, acesso ilimitado ao e.book apple.
Os e.books estão se espalhando pelo mundo. Festejemos!

É um leitor elêtronico de textos, um objeto que acompanha o tamanho padrão de um livro, tem tela sensível ao toque e conexão sem fio. Poderemos pagar uma assinatura de jornal e receber as notícias diariamente, poderemos ler livros on-line ou baixar, tudo através de assinaturas e adesões, é claro.
Pouquíssimos os questionamentos contra o sistema. Um deles é que o livro que você compra pode, de repente, sumir de sua biblioteca virtual pessoal, como o caso envolvendo obras de H. G. Wells, onde o herdeiro retirou os direitos do Google e deixaram de estar disponíveis. Mas esse foi caso isolado. Com a entrada da Barnes & Noble, com a disseminação da Apple por outros países, quase duzentos mil títulos estarão disponíveis. Portanto, sejamos receptivos ao sistema.

Qual a lógica que leva um encadernador clássico ao dar a mais calorosa e sincera Boas Vindas ao novo artefato tecnológico que permite leitura de milhares de livros?
Vamos poder reduzir bastante o enorme desperdício de papel!
A pobre Indústria Gráfica mundial tem critérios estranhos quando edita um livro. Se o autor vende bem, os livros são impressos com fontes enormes e espaços desproporcionais entre as linhas e entre os parágrafos, resultando em livros com quase mil folhas. Se o autor é desconhecido ou vai vender com dificuldade, as fontes são pelo menos quatro pontos menores e é grande a economia de papel. A indústria não pensa em vender bons livros a bom preço, mas em empurrar livros enormes de autores populares a preço alto.
Se a impressão é direcionada, o material e a encadernação atendem ao princípio da rápida obsolescência, pois o autor popular que vende bem é fenômeno passageiro que deve ser aproveitado antes de ser esquecido. Logo, o livro não precisa ser durável. É feito de papel de alta acidez e baixo custo, com estrutura de encadernação que mal resiste à primeira leitura. A capa é normalmente de papel couchet 180 gramas, altamente perecível e deformável, contendo ilustração que vai da mera cópia do original estrangeiro ou é simplesmente óbvia, com papel apenas informativo ou publicitário, sem acrescentar à obra qualquer valor ou elemento.
Na atualidade, o livro é:
1) uma forma de entretenimento saudável e proveitosa;
2) um recurso indispensável aos estudantes;
3) um recurso indispensável aos profissionais e intelectuais.
Em todas as hipóteses, o livro é meramente um meio para atingir um determinado fim. Alcançado o objetivo, é descartado.
Os casos em que o livro obtido é guardado como uma preciosidade, por pessoas que gostam do objeto em si, são raros.
Convenhamos, guardar os livros perecíveis editados hoje em dia é um desafio.
Principalmente para centenas de edições absolutamente efêmeras , o ebook é uma solução ecologicamente correta e de uma praticidade sem paralelo.
Por exemplo, os Vade Mecum - publicações de cunho juridico trazendo todo o transitório conjunto de Códigos - que são livros enormes (com 1.837 folhas na 7a. edição, de 2009, da Saraiva) ficam desatualizados em menos de um ano e precisam ser substituídos por todos os advogados e estudantes de Direto do País. É um horror. Se pelo menos esse livro estivesse disponível em ebook, milhares de pessoas ficariam gratas. Por uma assinatura razoável, teriam acesso a informações atualizadas on-line.
Este e muitos outros, prestam-se a estar disponíveis em ebook. Milhões de árvores serão salvas no processo, mais o prejuízo ambiental da fabricação do papel e da tinta.
E, como conseqüência final, as editoras vão precisar
fazer livros melhores que vale a pena comprar.
Antes de qualquer coisa, respeito muito o papel e acho que é um recurso tão precioso que deve ser destinado apenas a obras de longa vida. Obras de algum valor, seja documental, literário ou pessoal.
Além do mais, um livro tradicional não consome energia;
está sempre ali, à mão;
permite anotações pessoais;
não é ambicionado pelos ladrões;
pode ser emprestado ou trocado;
você pode dar de presente ou doar a quem não pode comprar;
é inteiramente e só seu!
Compre já o seu ebook, para ler as deliciosas porcarias do Crepúsculo, ou do Stephen King e de tantos outros, absolutamente indispensáveis para desopilar a cabeça, mas tão frívolos que não fazem a menor falta na biblioteca e todo e qualquer livro descartável que você seja obrigado a adquirir.