8 de jan. de 2022

Livro de Nascimento de 1944 - Da Fabricação aos Dias Atuais

 Relatório "O LIVRO A-3"

Da Fabricação aos Dias Atuais

Este livro foi fabricado por volta de 1940, Feito em papel CORU BOND, da incipiente e atrasada indústria brasileira de papel, por uma fábrica no Vale do Paraíba por um certo Dr. Cícero Prado, jovem advogado recém formado que em 1911 compra a Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba, São Paulo. Conto sobre isso neste blog: http://cuidardolivro.blogspot.com/2012/11/coru-bond.html

Devido a grande quantidade da palha de casca de arroz disponível o Dr. Cícero Prado compra máquinas usadas de uma indústria da Alemanha e funda uma fábrica de papelão em 1927, produzindo de 400 à 500 quilos por dia. A partir daí, mais quatro máquinas foram instaladas, produzindo cartolina de várias qualidades, papel tipo Kraft, papel pergaminho em vários padrões, papel fosco, papel impermeável, além do célebre produto "Coru-Bond".

Cada uma das folhas deste livro apresenta a MARCA D’ÁGUA, ainda visível se olhado contra a luz, com um escudo: Um vale com o rio Paraíba cercado de montanhas e a inscrição "Ind. Bras. Coru-Bond".

Com a matéria prima casca de arroz, o resultado é uma fibra muito curta e a cola usada na massa era altamente volátil. O resultado é evaporação em curto prazo e muita oxidação, daí a razão para que um livro feito a partir desse material esteja tão escuro, quebradiço e ressecado apesar de ser de 1940. Isso ocorre principalmente em livros da região de São Paulo. Tenho trabalhado em livros de 1900, com papéis ingleses, italianos e mesmo papéis feitos no Brasil na mesma época, como o Westerpost , em estado de elasticidade ainda aceitável e com pouca oxidação.

Segundo me foi relatado, este livro passou por duas enchentes, apresentando como prova marcas de barro nas laterais e a tinta do texto bastante diluída.

Oferecido para "restauração" pelo Cartório da cidade de Pedro Osório-RS, em 25 de Novembro de 2021, com trezentas folhas no formato 40,2 cm por 27,0 cm, tinha TODAS as folhas soltas e apenas vestígio da contracapa.

Todas as folhas estavam com os cadernos desfeitos e as folhas separadas. 100% das folhas apresentavam mutilação em todos os graus. Cerca de 70% das folhas faltando partes essenciais, sem fragmentos disponíveis para recomposição, com grande perda de material nas quatro margens. Outras 20% com as laterais rasgadas e enroladas. Cerca dos 10% restantes ainda intactas mas apresentando rasgados e fissuras nas laterais e partidas no meio. Todas sofreram interferência em algum grau.

Para reparo do livro, visando cessar a perda de fragmentos, proteger o material restante e permitir o manuseio cotidiano, SEM COBRIR O TEXTO, foram utilizados diversos materiais como:

- sulfite 65 gramas para laterais e áreas extensas sem texto;

- papel vegetal (manteiga) 45 gramas para as laterais com texto, para as laterais em geral e para re-unir as folhas;

- papel de seda e papel de arroz em ambos os lados de rasgados com texto;

- papel sulfite 120 gramas para um caderno em branco no começo e outro no fim do livro.

Com esta finalidade e com estes materiais as folhas foram reparadas, depois unidas para formar cadernos de dez folhas cada novamente e estes cadernos costurados, resultando no MIOLO do livro acabado. Em seguida, feita a capa com acabamento em couro fino que permite abertura suave e tela de tecido marmorizado. Fiz uma caixa sob medida para proteger o livro da umidade e da poeira, mantendo suas folhas mais unidas.

É importante considerar que este é um LIVRO MUITO FRÁGIL.

 As folhas permanecem quebradiças e não resistem ao manuseio descuidado.

Não faça pressão sobre as folhas. Até escrever nelas pode partir e rasgar.

Não folheie segurando pelas pontas. Escolha a folha desejada e abra sem segurar as folhas.

Curitiba, 8 de Janeiro de 2022.

Pedro Malanski









28 de set. de 2021

Encomenda especial

 Trabalho encomendado pela ANOREG-PR.

Trata-se de um livro para registrar a presença de autoridades e ilustres que visitam a Presidência do Tribunal de Justiça do Paraná.

Como referência, me apresentaram diversos outros trabalhos feitas para Tribunais de outros Estados e para o próprio. Na verdade, bons exemplos de como NÃO FAZER.

Acabei por desenvolver minha proposta.

Feito com cem folhas de sulfite 120 gramas em branco, com vinte cadernos de cinco folhas cada um e com separador interno, pois será colada uma folha com assinatura do visitante em cada uma delas.

Capa em couro, com logotipo do Tribunal em alto relevo e gravação.

Lombada com sete nervuras gravadas.






22 de out. de 2018

Trabalhos recentes

Esta semana foi mais calma do que o usual.
Fiz estes trabalhos para cartórios de Curitiba.
Todos os livros com acabamento em couro e uso de papel marmorizado ou tela marmorizada, conforme o tamanho do livro.
Apenas os livros de Controle de Assinatura são costurados e para isso usei fios mais finos e costura diferente, permitindo que o livro se abra completamente. O livro de "Controle de Firma Autêntica ou Verdadeira" e feito com impressão em papel cartão, resultando num volume grosso e pesado, com poucas margens internas. Deveria ser impresso em papel sulfite 120 gramas e com o espaço destinado à assinatura nas pontas e não no meio do formulário.

Livro de folhas soltas, amarrado, acabamento em couro e papel marmorizado.

Livro de cadernos costurados, acabamento em couro e tela marmorizada.

Livro de folhas soltas, amarrado, acabamento em couro e papel marmorizado.

Livro de folhas soltas, amarrado, acabamento em couro e papel marmorizado.


Trabalhos desta semana, livros com acabamento em couro e papel ou tela marmorizada.

8 de out. de 2018

Digitalizar é um perigo

De uns tempos para cá, os cartórios estão sendo obrigados a digitalizar todos os livros.
Para preservação das informações, dizem.
Mas, durante o processo de digitalização, os livros sofrem mutilações irreparáveis.

Para oferecer um custo menor ao cliente, usam o seguinte método:

 - Arrancam o miolo da capa;
 - Guilhotinam o lado esquerdo, as margens internas, sem desfazer a costura, até o limite de 22 centímetros de largura da folha, para caber na digitalizadora;
 - Furam, amarram as folhas e colam este miolo na mesma capa, agora muito maior do que o miolo.

O resultado é um livro sem margens internas, com a amarração muito perto do texto.

Demonstro aqui como ficou um livro antigo que foi guilhotinado e amarrado. As folhas não se abrem inteiramente e com o uso vão se partir na dobra forçada.

Detalhe de livro guilhotinado e sem nenhuma margem.

Livro guilhotinado e amarrado (bloco)

Em seguida, mostro como ficou um livro antigo que não foi guilhotinado e foi digitalizado com as folhas intactas, o que permitiu que fosse corretamente costurado. As folhas se abrem sem esforço e completamente.

Detalhe das margens e da costura

Livro intacto, com cadernos.
Falta aos digitalizadores técnicas que respeitem a integridade dos livros.

6 de dez. de 2017

Réquiem para um livro mutilado

Há somente uma maneira de reparar e encadernar livros:

Com muito trabalho e com a melhor técnica.

Qualquer outra forma resulta em livros mutilados. Esta semana apareceu este pobre livro.

A capa foi feita com baixos padrões, material frágil e sem nenhum tipo de reforço. Não foi feito há muito tempo, talvez uns quatro anos atrás, no máximo.


O ato criminoso foi praticado no miolo do livro. Pois foi simplesmente guilhotinado na dobra dos cadernos.


E depois furado com furadeira elétrica e amarrado. Vejam como as margens internas ficaram reduzidas.


Desta forma, já não é mais um "livro", mas apenas um bloco de folhas soltas.

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Agora, se tentar juntar as folhas e formar cadernos novamente, com uma fita de papel vegetal fino unindo as folhas, por exemplo, vai ficar um volume enorme de mais de 150 fitas dobradas, pois é um livro de 300 folhas.

É de chorar ver esse tipo de dano causado a um livro.

E não tem desculpa para o que foi feito. O papel ainda estava inteiro, com alguma oxidação mas ainda maleável.

O encadernador desconhece as técnicas e não tem nenhum respeito pelo material.

O titular do cartório permitiu que esse desastre acontecesse por desinteresse, ignorância ou mera economia.

É uma pena.

Aqui, marca d'água do fabricante do papel, em 1925.


O pior de tudo é que, certamente, este tipo de crime continua sendo cometido, mesmo nesse momento, em mais de um lugar neste Brasil.

29 de out. de 2017

Detalhes de encadernação clássica

Alguns detalhes do trabalho de encadernação
feito para cartórios de Curitiba. 

Um detalhe de acabamento da lombada interna de livros.
Provavelmente, nunca será visto por ninguém, mas precisa estar bem acabado
e guarnecido com papel marmorizado. 


A proporção entre o espelho - assim chamamos esta parte em tela marmorizada entre a lombada e os cantos da capa - e os cantos em couro deve sempre respeitar o tamanho do livro e a relação áurea entre os elementos. 


Lado interno das capas, ainda antes de um acabamento final.


Parte interna de uma pasta para cerimônias de casamento.


Capa de pasta para cerimônias de casamento.



27 de set. de 2017

O maior inimigo do livro

O maior inimigo de um livro é um encadernador sem técnica.

O Tempo não é inimigo do livro, pois o Tempo valoriza a obra bem feita e passa pelo livro naturalmente.

As Pessoas não são os piores inimigos do livro, pois mesmo o manuseio mais descuidado apenas revela a utilidade e o interesse das pessoas pelo conteúdo do livro.

O maior inimigo de um livro é um encadernador ruim, preguiçoso, mesquinho e desrespeitoso.



Vejam estes livros.

São três livros, datados de 1893 a 1914, com marca d'água AL MASSO, que sofreram uma interferência desastrosa de alguém que CORTOU OS CADERNOS! Em seguida serrou as folhas para somente amarrar, fazendo diversos pequenos cortes talvez para penetração de sua cola. E USOU COLA DE SAPATEIRO!!!!


Transformou o livro em um BLOCO.
Não restaurou as folhas
 e guilhotinou os quatro lados do livro.


Este outro livro, também de 1914, passou por uma interferência razoável talvez nos anos 1960 e apresenta os cadernos ainda intactos.

Aquele que se diz encadernador faz um trabalho tão precário que destrói e mutila um livro e ainda tem coragem de cobrar por isso.

Tenho restaurado e encadernado livros antigos, velhos e recentes.

Quando um livro nunca sofreu nenhuma interferência o trabalho é muito fácil. Basta reparar os rasgados, reforçar as dobras de cada caderno, costurar os cadernos, elaborar a capa e o trabalho está feito.

Mas a maioria dos livros que tenho restaurado já passaram por mãos sem conhecimento e habilidade.

Estão sem nenhum restauro ou reparo das folhas. Estão serrados e amarrados. Cola foi aplicada em cima das dobras rasgadas dos cadernos, penetrando mais profundamente ainda, sendo penoso e danoso desmembrar os cadernos.

Esses livros estão simplesmente guilhotinados, com redução das margens e até com perda de texto, pois alguém não teve o capricho de reparar as avarias e manter o livro íntegro. Muitas vezes completamente torto!

O mau encadernador é capaz de muitos outros erros, como usar fita adesiva e mesmo fita crepe, jogar fora as etiquetas do fabricante original e as capas originais e as orelhas do livro, usar capas muito maiores do que o livro, colar o lombo falso na lombada interna do livro, costurar os cadernos sem serrotar o cortando o papel com a agulha, usar cola de sapateiro em material sintético e a cola se transforma em óleo e se desfaz.

O mau encadernador é um pesadelo para o livro e um pesadelo para o encadernador técnico e competente que depois precisa primeiro desfazer todos os erros cometidos para só então poder fazer o bom trabalho.

E vou dizer em desabafo:

NUNCA ENCONTREI NENHUMA ENCADERNAÇÃO PELO MENOS RAZOÁVEL EM TODOS OS MEUS ANOS DE TRABALHO.

Nunca me deparei com um livro bem refeito, seja de livros de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina ou Paraná. Lugares onde já atuei. Todos sempre precários, errados, feios e criminosos. Todos de uma pobreza atroz.

Sendo assim: PRENSA NELES.


22 de mai. de 2017

O PUXA SACO

Resultado da grande, nobre e centenária
 Arte da Encadernação Clássica.

Pedro Malanski apresenta
 o seu glorioso Puxa Saco!

Um auxiliar precioso na hora de guardar aqueles saquinhos de supermercado que são tão úteis e preciosos à distinta senhora dona de casa e ao distinto cavalheiro dono de casa.

Seu uso não exige prática e nem habilidade e qualquer pessoa pode fazer um rolinho com cada saquinho e enfiar no seu Puxa Saco.

Quando necessitar um novo saco para o lixo da cozinha, do banheiro ou do escritório, basta pegar um rolinho. 


Não precisa prego nem adesivo na parede!

É lavável, apenas basta passar um pano e pronto!

Feito de papelão e papel marmorizado 
com tinta esmalte impermeável!

Em vários e úteis tamanhos,
do tamanho de sua família! 

ADQUIRA AGORA MESMO O SEU PRÓPRIO PUXA SACO!


Produto exclusivo e de produção limitada!

Conheça aqui o novo, revolucionário e indispensável Puxa Saco!
Puxa Saco

(Pior que perder um tempinho fazendo essas coisas no atelier, é ter a paciência de escrever um reclame propagandístico.)

21 de mar. de 2017

Onde Comprar Material de Encadernação

Desventuras de um encadernador
na busca de material de trabalho em Curitiba.

A cada dia que passa, minha cidade fica menor.
Largo da Ordem
Aquarela do Barbetta

Cada vez que fecha uma empresa.
. 
Cada vez que vou comprar meu material de encadernação e aquela empresa não vende mais.

E assim Curitiba vai ficando cada vez menor.


Aconteceu com o papelão Coru. Feito de casca de arroz, tem muito mais densidade e rigidez do que o papelão cinza ou do que o papelão feito de material reciclado que está dominando o mercado. Aliás, esse papelão poroso e mole não deve ser realmente reciclado, mas papelão de baixa qualidade que se diz reciclado.

Sempre esteve à venda em todas as gramaturas na Casa do Sapateiro. Hoje só encontro os mais finos, usados para fazer bolsas.

Curitiba não tem um local onde comprar todos os materiais de encadernação, assim é preciso comprar cada um em um lugar diferente.

Papéis é na Santa Maria Distribuidora, que vende a granel e guilhotina se for preciso. Tem quase tudo em papéis no formato 66 x 96 cm, papelões comuns e algumas colas para gráfica.

Tecido em algodão cru para fazer tela e marmorizar, agora só tem na Rua Bley Zornig, lá no Boqueirão. Antes, encontrava retalhos a quilo nas casas de couro da Rua Dr Muricy, hoje só por metro e mais caro.

Colas tem que comprar em casa de tintas ou de materiais de construção, limitado a usar a cascorez extra em embalagem de um quilo, por ser a única de acidez tolerável. Ultimamente, estou pagando dezenove reais pela embalagem de um quilo na Tintas Virgínia. O preço é menor do que em qualquer outro lugar.

Fitas para reforço externo na dobra folha de guarda, encontro em uma ou outra loja de armarinhos.

Não tem nenhum lugar para comprar espátulas de osso ou de silicone. Quando encontro, só uma ou outra de silicone em loja de material de artesanato. Mas são caras, desconfortáveis e grosseiras, umas coisas quadradas e grossas, indicadas para finalidades diferentes da encadernação.

Couros, se tiver sorte e oportunidade, nas casas de couro da Rua Dr Muricy. Como a sorte é madrasta, raramente encontro o couro que procuro e preciso me contentar com aqueles disponíveis. Bom mesmo é comprar um couro flexível, fino ou grosso, que não parta nem escame e que aceite bem a cola branca. Só em dia de sorte. Assim, cada couro é um novo aprendizado de como trabalhar.

Nestes mesmos lugares, encontro fios para  costura. Linha de três fios encerados, de preferência. A Casa do Sapateiro voltou a vender papelão coru, em gramatura fina, vendido por quilo.

Vulcapel, só e unicamente na casa de couro do Schmuk, por enquanto.

Cera de abelha para encerar os fios de costura e às vezes passar em papéis tomados por fungo, só numa lojinha de materiais de construção ali na Mateus Leme. Já foi-se o tempo de comprar na Casa Vermelha ou no Senff Ferragens.
Arranjei uma cera boa na Feira de Inverno da Praça Osório, nas barracas que vendem mel.

Lembrei agora que já faz uns vinte anos que deixei de usar cola orgânica, aquela feita de gelatina animal e usada em banho-maria, por ter desaparecido inteiramente de todas as lojas de Curitiba. A última que encontrei, justamente no Senff ali atrás da Catedral, estava tão suja e contaminada que os livros ficaram com cheiro de podre.

E não adianta nem perguntar se tem Alvaiade. Ninguém mais sabe o que é ou para quê serve. É um espessante usado até por Da Vinci, misturado com gelatina e outras coisas, para fazer suas telas de pintura.

Fita para douração é um parto. Só havia a Personalizze, ali no Rebouças, mas fechou (Fechou coisa nenhuma, está no mesmo lugar e agora mesmo voltei de lá com a fita de ouro que eu precisava!) Estou com esperança de encontrar numa empresa ali na Mateus Leme, a Tegape,  e amanhã vou procurar. Se não encontrar, não sei a quem recorrer. (Eles tem só o rolo de 60 centímetros de largura, todas as fitas com fundo prata, mas atendem que é uma beleza e não servem para o meu trabalho).

Isso tudo sem falar de onde encontrar ferramentas de encadernação em Curitiba. Simplesmente ninguém sabe sequer o que é um brunidor, não existe estilete largo com guia de metal, só tem lâminas quebradiças da China...   

E assim ficamos. Cada dia menores em Curitiba.