30 de mar. de 2015

Relação de Clientes de Encadernação e Restauro

Minha atividade de restaurador de livros e encadernador clássico
começou profissionalmente no começo do ano 2001.
Antes disso, desde 1981, fazia o mesmo trabalho de forma amadora, principalmente junto a bibliófilos e colecionadores. Encadernava livros em troca de livros, pesquisando e praticando as boas técnicas clássicas com o auxílio do livro de Zelina Castello Branco, "Encadernação".
O trabalho de restauro e encadernação de livros em geral não tem muita procura. Não é caro, mas assim mesmo é muito raro que eu faça livros técnicos, de literatura ou mesmo livros de considerável valor bibliográfico ou histórico. De vez em quando sou procurado para fazer uma bíblia. 
Desta forma, encontro poucas oportunidades para exercer a técnica de encadernação clássica em toda sua plenitude.
O único mercado que se mostrou promissor foi o de livros oficiais, pois em cartórios, tabeliães e registro de imóveis, livros são documentos únicos, insubstituíveis e de valor inestimável. Como são manuseados diariamente precisam ser bem construídos, usando técnicas e materiais que garantam a integridade e a longevidade do livros. A encadernação comercial comum não oferece nenhum desses benefícios. 
Como fui contador de cartórios durante quase 20 anos, gozo da confiança de alguns deles e assim comecei a atividade profissional,

Em 14 anos de trabalho, milhares de livros.  

Até hoje, já fiz TODO O ACERVO dos seguintes clientes:


3a. Circunscrição do Registro de Imóveis de Curitiba
4a. Circunscrição do Registro de Imóveis de Curitiba
2a. Circunscrição do Registro de Imóveis de Curitiba
6a. Circunscrição do Registro de Imóveis de Curitiba
Registro de Imóveis de Paranaguá, Paraná
Cartório da Barreirinha em Curitiba
Cartório de Santa Felicidade em Curitiba
Cartório Mercês em Curitiba
Cartório do Taboão em Curitiba
1o. Ofício, Cartório Leão em Curitiba
3o. Ofício do Registro Civil em Curitiba
Cartório de Santa Quiéria, em Curitiba
Cartório de Pinhais, Paraná
Cartório de Piraquara, Paraná
Cartório de Pedro Osório, Rio Grande do Sul
Cartório de Herval, Rio Grande do Sul
Cartório de Taiaçu, São Paulo
Cartório de Jaguarão, Rio Grande do Sul 

Também fiz parte do acervo de alguns clientes no Interior do Paraná, de São Paulo e de Santa Catarina, que enfrentaram a distância e contaram com a compreensão dos seus Juízes Corregedores para retirar os livros da Comarca e providenciar o restauro tão necessário. Cito alguns:


Registro de Imóveis de Cambará
Registro Civil de Murutinga do Sul
Registro Civil de Lucélia
Cartório de Farol
Cartório de São João do Triunfo

Além desses, há outros que não tiveram fôlego ou interesse em fazer todo o acervo, limitando-se a fazer alguns livros mais deteriorados. Realmente, é essencial que esteja implícito o senso de responsabilidade e o bom gosto para a conservação dos importantes documentos públicos.

Um trabalho diferente foi junto à Fundação Poty Lazzarotto, onde encadernei documentos, livros e papéis deixados pelo artista plástico curitibano, sob os cuidados de João Lazzarotto.

A arte é a base, o artesanato é a aplicação das mesmas técnicas e materiais a um grande número de peças.

Neste últimos anos, tenho sido o que sempre desejei ser, fazendo o que me dá enorme prazer e satisfazendo completamente meus clientes, pois vou muito além de suas melhores expectativas ao oferecer os benefícios dessa arte desconhecida para a esmagadora maioria das pessoas, a boa e velha Encadernação Clássica.



60 livros recebidos do Rio Grande do Sul

livros desmontados prontas para iniciar o restauro.


livro 61 x 43 cm e dois 41 x 25 cm

de 1876 em diante


12 de jan. de 2015

Simulacro de Livros com douração lateral

Imitação de livros, todos com acabamento em couro na lombada e cantos, com espelho em tinta óleo sobre tela. 
Parte interna, marmorizado óleo sobre papel.
Formato 16,5 x 11,5 cm X 5,5 cm.
Douração com ouro de encadernação a frio nas laterais.
Douração manual na marcação de nervuras.  









1 de jan. de 2015

Tema Viaduto Estaiado


Fim de ano sobra tempo para se aventurar, fazer experimentações e propor novos trabalhos.

Escolhi o tema Viaduto Estaiado por ser a obra presente a cem metros de minha casa, constituindo paisagem de elegância e imponência que acaba por exercer forte influência em minhas inclinações estéticas.

São leituras, ou seja, não se prestam a retratar fielmente a obra, mas evocar seu design limpo e eficiente em diversas abordagens, distâncias e perspectivas.

     Todas as capas são de couro, com alto e baixo relevo. Cada um com oito cadernos de quatro folhas cada um ou oito páginas, com costura simples a fio.

Frente de Capas

Outras capas

Livro em branco te tema livre, aberto para mostrar a costura a fio e o papel marmorizado.

Livro em braco de tema livre, capa e contracapa em alto e baixo relevo em couro. 

Frente de livro em branco de tema livre, capa em alto e baixo relevo em couro.

Mesmo livro em pé.

Livros abertos, tema Viaduto Estaiado e Clássico. 

Lombadas de Livros tema Viaduto Estaiado.

Pé de Livros tema Viaduto Estaiado

Capas de livro tema Viaduto Estaiado.

Outras capas com variações sobre o tema Viaduto Estaiado.

Capas abertas de livros sobre o tema Viaduto Estaiado.

Livro aberto para mostrar a costura a fio.




24 de jul. de 2014

Digitalizando livros de cartório: CUIDADO!

Ainda hoje, conheci um cartório da região de Curitiba, onde me apresentei para restaurar e encadernar seus livros. 

Conversando, contou-me que vai precisar digitalizar todos os livros, por exigência do Juiz Corregedor.
E que precisa desmontar os livros e reencadernar. Inclusive, a empresa contratada vai fazer todo o serviço.
Isto é um erro e um perigo para os livros.

É desnecessário desmontar e encadernar novamente, pois existem equipamentos de digitalização que cumprem a tarefa e que já foram usados com sucesso em outros cartórios.
Com o SCANER DOBRAVEL, com um "braço flexível que pode ser montado em uma mesa e ser ajustado para qualquer tamanho de livro, por exemplo, que é pequeno, prático e eficiente, existindo muitos modelos no mercado, o próprio cartório pode fazer o trabalho.

Temo que as empresas que oferecem o serviço de digitalização não tenham conhecimento para encadernar os livros. Além disso, representam um custo de cerca de R$.0,49 POR DOCUMENTO.

Podem cometer os erros comuns do encadernador comercial, entre eles:

1- Dilacerar os livros na desmontagem;
2 - Perder fragmentos ou pedaços dos livros manuscritados antigos;
3 - Desprezar detalhes históricos do livro, como etiqueta de fabricantes, amostras de material original, etc.;
4 - Apenas amarrar as folhas, na re-encadernação sem restauro;
5 - Refilar ou guilhotinar no mínimo um centímetro dos lados dos livros, para retirar partes irregulares, perdendo texto e averbações;
6 - Utilizar material de acabamento frágil.

É preciso que esses procedimentos sejam denunciados para que sejam evitados.

Outro detalhe importante é quanto às constantes digitalizações que serão necessárias a cada nova Averbação nos registros.

Para atender à demanda diária do Cartório, os livros teriam que ser sempre encaminhados para a digitalização. Com uma máquina no próprio local, isso pode ser feito rotineiramente no próprio cartório.

  Um trabalho amador pode custar caro e prejudicar os documentos públicos.

Contem com minha assessoria sem nenhum custo para encontrar a melhor solução para digitalização do acervo do cartório, com mínima despesa, total segurança e respeito aos documentos.

Pois os livros continuarão sendo a única forma de registro perene, que não podem ser impunemente fraudados e que tem inquestionável fé jurídica e legal.

22 de jul. de 2014

Livros Oficiais

Alguns exemplos do trabalho de restauro e encadernação de livros de cartório, como Registro de Imóveis, Registro Civil e Títulos e Documentos, preciosos depositários de documentos públicos.
Todos com acabamento em couro na lombada e nos cantos, com o espelho em tela (tecido com base de tinta acrílica e marmorizados com tinta esmalte sintético).

Apesar do acabamento nobre e de usar técnicas que demandam muito mais aplicação de mão de obra, o preço é bastante compensador, menos do que o dobro do valor das encadernações comerciais que todo mundo conhece.

E dou garantia total enquanto eu viver.


TRABALHOS DE UMA SEMANA BEM PRODUTIVA

LIVROS MEDINDO 63 X 41 cm 

Livros medindo 41 x 28 cm

Mesmos livros enfatizando o canto inteiro em couro
,
Exemplos de nervuras e douração 

20 de out. de 2013

Encadernação em Curitiba dos anos 1880

A importância da indústria da encadernação no século 19 só é possível de ser avaliada se hoje compararmos com a indústria de telecomunicações, a internet e as grandes corporações de entretenimento. A indústria gráfica era a principal forma de comunicação, entretenimento e educação desde o desenvolvimento dos tipos móveis por Guttenberg, até o surgimento do rádio.

Eram centenas de fábricas de papel feitos a partir de matéria prima obtida das florestas virgens, com exploração indiscriminada de madeiras nobres. Hoje crime ecológico, resultou em papéis de fibras resistentes e duráveis que desafiam o efeito do tempo, muito diferente do pobre papel de pinus cultivado usado atualmente.

Eram milhares de lojas que vendiam material gráfico e tipográfico, para essa meio de divulgação que tirou a humanidade da ignorância da Idade Média até desembocar na sociedade tecnológica que vivemos.

Em Curitiba, encontrei duas marcas de vendedores e mostro aqui mesmo.

Um "A Pendula Meridional" de Luiz Coelho, encontrado num livro de 1885:


Outro, Encadernação J. Chrispim, de um livro de 1883:


27 de mai. de 2013

Encadernando com Sucesso

Largo da Ordem, Curitiba - aquarela de Barbetta
ENCADERNANDO COM SUCESSO

INTRODUÇÃO

Comparar o trabalho de diferentes encadernadores não é justo.

A grande maioria realiza trabalhos simples, usando nenhuma técnica especial, com materiais baratos e frágeis, caracterizando a encadernação comercial que prioriza o menor custo.

Alguns poucos se dedicam a aplicar parte das técnicas básicas, utilizando grande variedade de materiais com muita criatividade, enfatizando uma estética pessoal e se enquadrando como encadernação artística.

Muito poucos utilizam apenas materiais nobres naturais e técnicas completas de encadernação.

Assim, ao comparar trabalhos, não pretendo menosprezar ou criticar, mas sim, demonstrar que os profissionais de encadernação precisam dar a si mesmo muito mais valor, através do exercício de uma arte mais completa que garanta resistência, longevidade e beleza aos livros.
 

JUSTIFICATIVAS

Deixem que eu apresente duas situações que me marcaram a atividade profissional.

Certa vez, quando o trabalho em um dado acervo de cartório já ia pela metade, inclusive refazendo alguns livros que tinham sofrido uma péssima interferência recentemente, o titular me confidenciou:

“Fazia muito tempo que eu queria mexer nesses livros, mas nunca apareceu ninguém que fizesse um trabalho como o seu.”
Noutro momento, conversava com a Mestra Zelina Castello Branco e ela me revelou que havia doado suas ferramentas a um rapaz seu aprendiz, o que foi uma pena, pois:
“Parece que ele não está trabalhando, estava reclamando que não tem serviço.”
Assim, de um lado temos o Cliente reclamando do trabalho de encadernadores, de outro lado temos o Profissional sem trabalho.

Pergunto: como pode um bom encadernador (pois é discípulo da Mestra maior) dizer que não há serviço em São Paulo – Capital? É um vasto campo de trabalho, com cartórios muito antigos e operosos, cada um com milhares de livros manuseados até a exaustão, necessitando urgente mas qualificada reparação.

Para tanto é necessário oferecer um trabalho de qualidade, por um preço justo, usando boas técnicas tradicionais e materiais resistentes.

Concluindo, acredito que o meu específico trabalho supera as melhores expectativas dos clientes, tem uma boa relação “custo/benefício” entre preço e qualidade e respeita o livro acima de tudo, tendo grande aceitação e resultando no sucesso do meu empreendimento.

Pretensioso?

Apenas generoso, ao propor que meus procedimentos elevem o patamar de qualidade de meus colegas e possam atuar num mercado exigente.

Portanto, que os camparados não se ofendam, mas agreguem minhas sugestões aos seus trabalhos, imprimam seu toque pessoal, adicionem qualidade e, acima de tudo, valorizem-se. 

A COMPARAÇÃO 

GERAL


Os resultados aqui comparados se referem a duas técnicas completamente diferentes.

Uma, usa materiais especiais, como lombada e cantos de couro, com o espelho em tecido -ou tela- marmorizada. Este material pode ser lavado, tem grande resistência ao manuseio, permite douração direta sobre o couro.
Outra usa tecido de algodão, chamado lonita, sem complementos. Não permite que seja lavado e precisa de etiquetas coladas sobre o tecido.
Há outras diferenças, por exemplo, as cinco nervuras na lombada de couro, impedem que a douração seja atingida quando da abertura do livro.  

CAPAS

Enquanto uma apresenta cantos e lados lixados e arredondados, a outra mostra o corte do papelão sem acabamento, com bordas acentuadas, com um "fio" cortante que agride o tecido de acabamento.
Mostro como preparar o papelão da capa em outro post: A CAPA.

FOLHA DE GUARDA

É essencial inserir uma folha de rosto e outra folha extra em branco, depois da folha de
guarda e ANTES do começo das folhas do livro propriamente ditas.
Apoiar a folha de guarda diretamente na folha oficial causa o tracionamento da folha, que é forçada a cada vez que o livro é aberto, ficando sanfonada e rasgada com o uso.
Além disso, é necessário o uso de folha de guarda marmorizada sempre e unicamente com tinta a óleo ou esmalte, para isolar as folhas em branco da acidez da cola usada na capa.
Abordo essa questão em outro post: MONOTIPIAS.

REFORÇO DE COSTURA

Um livro apresenta a técnica de costura com cadarços, mais tecido, dando sustentação ao
miolo do livro através de tiras de tecido que acompanham a costura e se apoiam na capa.
Outro, apenas um tecido fino colado à lombada interna.


OUTROS DETALHES RELEVANTES




 Corte arredondado nos cantos internos protege do movimento constante de abrir e fechar, que sempre deforma o papelão e "morde" o material de acabamento.
 

A etiqueta foi embutida no espelho. Ou seja, o espelho foi cortado e a etiqueta preencheu o espaço, não deixando diferença entre as superfícies. Como deve sempre ser guardado EM PÉ, entre outros livros, a fricção resultante pode arrancar uma etiqueta em relevo.

CONCLUSÃO

Este livro que ilustra o post não é nenhum em especial, sendo apenas um dos livros que fiz dentre os trabalhos desta semana. É um livro datado de 1970 e estava mais ou menos no mesmo estado de conservação do livro que lhe foi comparado, medindo 43,5 por 29 cm e com 300 folhas mais o índice.

O propósito deste post não é entrar em concorrência, muito menos criticar o trabalho alheio. Pretendo apenas demonstrar que é possível utilizar técnicas e materiais muito melhores, oferecendo um produto muito superior aos clientes e com ganhos para o encadernador.

Por exemplo, fiz este livro por R$.120,00 e acredito que faria o mesmo preço pelo outro livro, pois este é apenas um dentre cerca de mil livros que estou fazendo para este cliente, num trabalho continuado.

Ambos os trabalhos tem em comum o fato de NÃO CONSTITUIREM RESTAURAÇÃO, pois nenhum deles foi deixado igual ao dia em que foram criados, recebendo apenas reparos generalizados e acabamentos diferentes.

12 de dez. de 2012

Magister Paper

Magister Paper
Sublime
Westerpost

 Encontrei esta marca d'água num livro de 1925.

É muito rebuscada e com diversas informações.

A marca "I. N.A." , o nome "Magister Paper" e a data "1913", elemento que nunca vi em outros papéis.

Além disso, um conjunto quase heráldico, com uma flor de lis, um escudo e a repetição do INA em letras elegantes.

Quase aos em anos de fabricação, o papel apresenta acentuada oxidação, estando bem amarelado, mas ainda conserva elasticidade e não está ressecado.

Pesquisei sem sucesso sobre esse fabricante, mas registro aqui sua existência.





*   *   *   *   *   *   *
Sublime

Outra marca d'água que encontrei em um livro que estou restaurando, de 1916, é a marca Sublime, seguida do brasão  BTH.
Apresenta-se com boa elasticidade e quase branco. Essa folha é a folha de rosto do livro, porisso apresenta manchas castanhas formadas pela gordura de dedos que a manuseram.
 


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WESTERPOST

Mais um, de um livro também de 1916, um exemplo de papel brasileiro de alta qualidade, ainda com boa elasticidade e com amarelamento semelhante aos melhores papéis fabricados na mesma época na Europa, é o famoso Westerpost, numa marca d'água simples e direta, com a inscrição Indust. Brasil., sem nenhuma ilustração.




S. O. R. & Co

Livro fabricado por volta de 1920, talvez pela indústria britânica.
Adicionado em 24 de Agosto de 2023.
Tem a figura de um gato, uma prensa, três livros fechados e um aberto.







27 de nov. de 2012

Coru Bond

Esta é a marca d'água do fabricante do papel Coru Bond

Feito em papel CORU BOND, da incipiente e atrasada indústria brasileira de papel, por uma fábrica no Vale do Paraíba, fundada em 1911, por um certo Dr. Cícero Prado, jovem advogado recém formado que compra a Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba, São Paulo.


A terra é pobre, coberta por guamirins e barba de bode e a parte baixa é dominada pelo Rio Paraíba. Foram precisos vários quilômetros de dique para domar o Rio e iniciar uma das primeiras plantações de arroz do Vale do Paraíba.

Devido a grande quantidade da palha de casca de arroz o Dr. Cícero Prado funda uma fábrica de papelão em1927, produzindo de 400 à 500 quilos por dia. A partir daí, mais quatro máquinas foram instaladas, produzindo cartolina de várias qualidades, papel tipo Kraft, papel pergaminho em vários padrões, papel fosco, papel impermeável, alem do célebre produto "Coru-Bond"... 

Com a matéria prima arroz, o resultado é uma fibra muito curta e a colas usada na massa eram altamente voláteis. O resultado é evaporação em curto prazo e muita oxidação, daí a razão para que um livro feito a partir desse material esteja tão quebradiço e ressecado apesar de ser de 1950. Isso ocorre principalmente em livros da região de São Paulo. Tenho trabalhado em livros de 1900, com papéis ingleses italianos  e mesmo papéis feitos no Brasil na mesma época, como o Westerpost , em estado de elasticidade perfeito.

Papelão "couro" Agropel
Em mais um exemplo de como uma palavra pode ser corrompida, sendo esquecida sua verdadeira origem, atualmente é fabricado um papelão denso, de cor castanha que é chamado de PAPELÃO COURO, utilizado principalmente como estrutura de pastas, bolsas e malas, na Indústria de calçados, vidraçarias, Indústria de bolsas, Indústria moveleira, Indústria de bebidas, Indústria de fogos de artifício e Indústria têxtil. É fabricado principalmente com casca de arroz.

Evidentemente não é fabricado a partir do couro, mas, originalmente chamava-se PAPELÃO CORU.

Há outro post sobre marca d'água neste blog.    



16 de nov. de 2012

Conto do Encadernador Louco

A mão esquerda é minha mão de apoio para cortar o papel.

Primeiro marco a medida, fazendo um risco superficial com o estilete. Antes marcava com um lápis, mas nunca sabia se cortava antes da marca, depois da marca ou no meio da marca. Portanto, corto no corte.

A regra para cortar sem errar é: Primeiro o trilho, depois o corte. Ou seja: Primeiro faz um risco leve em todo o sentido do corte e em seguida corta fundo. Não tem erro.

Dependendo da pressa ou do cansaço ou da burrice, é muito fácil cortar os dedos da mão esquerda que segura a régua. Depende ainda se a lâmina é nova e ainda com a vaselina que o fabricante usa para poder vender uma do lado da outra num estojo de plástico. Depende ainda mais se é uma maldita lâmina fabricada na China, aquelas que se desfazem em pequenos pedaços ao menor deslize da mão.

Mas depende principalmente da burrice.

Já cortei de todas as maneiras. Desde a ponta do indicador até a falange do meio. Bem no meio do polegar salvo pela grossura do unha. À esquerda e à direita desse mesmo polegar. Cortes rasos, cortes fundos, talhos, arranhões. De todas as formas possíveis.

A providência é lavar com iodo, queimar um pedaço de algodão e abafar o fogo quando começar a virar carvão e aplicar este carvão ao corte. Isso faz parar qualquer sangramente no mesmo instante. Envolva tudo com esparadrapo ou micropore e deixe ficar por uns dois dias.

Usando o estilete o dia inteiro, é inevitável se cortar.

Faz algum tempo, cortei um pedaço grande do lado direito do meu dedo indicador esquerdo.

Saiu inteiro. Um pedaço de uns três centímetros, ainda com um canto de unha, ficando bem visível a derme, mesoderme, endoderme e um pedaço de carne com pequenas veias. Segurei firme acima de minha cabeça para parar o sangue e fui tratar. Lavei, apliquei algodão queimado, enrolei com uns trinta centímetros de micropore e voltei para o atelier.

O pedaço estava lá, em cima da mesa, ao lado do estilete ainda com um fio de sangue. Pensei: esse livro vai ficar com meu DNA.

Me pareceu um pedaço tão grande de mim que merecia um sepultamento digno ao invés de simplesmente ir para o lixo. Fiquei com pena e deixei de lado, recomeçando o trabalho que nunca pode parar.

Limpando a mesa no fim do dia, o que fazer com aquele bife?

"Não sei se por ironia ou se por amor ", peguei um prego e preguei o pedaço de mim já meio seco, num canto da prateleira de ferramentas.

Bastou um mes, ou pouco mais, para cortar um pedaço da ponta do polegar direito, um pouco para a esquerda. Coisa pouca. E o pedaço acabou pregado ao lado do outro.

Macabro e de mau gosto! Sem dúvida, mas são pedaços meus e me levo em grande consideração, Vão agora me censurar por meu amor-próprio, minha autoestima?

Enfim, o corpo humano tem um fascinante poder de recuperação e bastam umas semanas para o dedo ficar como novo.


Mas o "acidente" seguinte foi estranho.

Juro que foi sem querer, mas posso jurar também um lampejo de olhar maligno para do dedo, pouco antes de cortar de novo um pedaço grande do pobre indicador esquerdo.

Esse novo pedaço bem considerável foi parar ao lado dos outros, devidamente equidistantes.

O que pretento? Juntar pedaços de mim mesmo para fazer um homem novo? Mostrar que sou um mártir, quando é evidente que sou apenas um desajeitado? Lembrar o quanto sou burro e descuidado? Ou um hellraiser ensandecido? Colecionar pedaços de mim?

Quem sabe?

Hoje, o corte está curado, apenas levemente áspero na cicatriz, mas tenho me flagrado olhando de forma sinistra para a minha pobre mão sinistra, enquanto a dextra segura o estilete e desliza perigosamente a alguns centímetros da carne.