20 de out. de 2013

Encadernação em Curitiba dos anos 1880

A importância da indústria da encadernação no século 19 só é possível de ser avaliada se hoje compararmos com a indústria de telecomunicações, a internet e as grandes corporações de entretenimento. A indústria gráfica era a principal forma de comunicação, entretenimento e educação desde o desenvolvimento dos tipos móveis por Guttenberg, até o surgimento do rádio.

Eram centenas de fábricas de papel feitos a partir de matéria prima obtida das florestas virgens, com exploração indiscriminada de madeiras nobres. Hoje crime ecológico, resultou em papéis de fibras resistentes e duráveis que desafiam o efeito do tempo, muito diferente do pobre papel de pinus cultivado usado atualmente.

Eram milhares de lojas que vendiam material gráfico e tipográfico, para essa meio de divulgação que tirou a humanidade da ignorância da Idade Média até desembocar na sociedade tecnológica que vivemos.

Em Curitiba, encontrei duas marcas de vendedores e mostro aqui mesmo.

Um "A Pendula Meridional" de Luiz Coelho, encontrado num livro de 1885:


Outro, Encadernação J. Chrispim, de um livro de 1883:


27 de mai. de 2013

Encadernando com Sucesso

Largo da Ordem, Curitiba - aquarela de Barbetta
ENCADERNANDO COM SUCESSO

INTRODUÇÃO

Comparar o trabalho de diferentes encadernadores não é justo.

A grande maioria realiza trabalhos simples, usando nenhuma técnica especial, com materiais baratos e frágeis, caracterizando a encadernação comercial que prioriza o menor custo.

Alguns poucos se dedicam a aplicar parte das técnicas básicas, utilizando grande variedade de materiais com muita criatividade, enfatizando uma estética pessoal e se enquadrando como encadernação artística.

Muito poucos utilizam apenas materiais nobres naturais e técnicas completas de encadernação.

Assim, ao comparar trabalhos, não pretendo menosprezar ou criticar, mas sim, demonstrar que os profissionais de encadernação precisam dar a si mesmo muito mais valor, através do exercício de uma arte mais completa que garanta resistência, longevidade e beleza aos livros.
 

JUSTIFICATIVAS

Deixem que eu apresente duas situações que me marcaram a atividade profissional.

Certa vez, quando o trabalho em um dado acervo de cartório já ia pela metade, inclusive refazendo alguns livros que tinham sofrido uma péssima interferência recentemente, o titular me confidenciou:

“Fazia muito tempo que eu queria mexer nesses livros, mas nunca apareceu ninguém que fizesse um trabalho como o seu.”
Noutro momento, conversava com a Mestra Zelina Castello Branco e ela me revelou que havia doado suas ferramentas a um rapaz seu aprendiz, o que foi uma pena, pois:
“Parece que ele não está trabalhando, estava reclamando que não tem serviço.”
Assim, de um lado temos o Cliente reclamando do trabalho de encadernadores, de outro lado temos o Profissional sem trabalho.

Pergunto: como pode um bom encadernador (pois é discípulo da Mestra maior) dizer que não há serviço em São Paulo – Capital? É um vasto campo de trabalho, com cartórios muito antigos e operosos, cada um com milhares de livros manuseados até a exaustão, necessitando urgente mas qualificada reparação.

Para tanto é necessário oferecer um trabalho de qualidade, por um preço justo, usando boas técnicas tradicionais e materiais resistentes.

Concluindo, acredito que o meu específico trabalho supera as melhores expectativas dos clientes, tem uma boa relação “custo/benefício” entre preço e qualidade e respeita o livro acima de tudo, tendo grande aceitação e resultando no sucesso do meu empreendimento.

Pretensioso?

Apenas generoso, ao propor que meus procedimentos elevem o patamar de qualidade de meus colegas e possam atuar num mercado exigente.

Portanto, que os camparados não se ofendam, mas agreguem minhas sugestões aos seus trabalhos, imprimam seu toque pessoal, adicionem qualidade e, acima de tudo, valorizem-se. 

A COMPARAÇÃO 

GERAL


Os resultados aqui comparados se referem a duas técnicas completamente diferentes.

Uma, usa materiais especiais, como lombada e cantos de couro, com o espelho em tecido -ou tela- marmorizada. Este material pode ser lavado, tem grande resistência ao manuseio, permite douração direta sobre o couro.
Outra usa tecido de algodão, chamado lonita, sem complementos. Não permite que seja lavado e precisa de etiquetas coladas sobre o tecido.
Há outras diferenças, por exemplo, as cinco nervuras na lombada de couro, impedem que a douração seja atingida quando da abertura do livro.  

CAPAS

Enquanto uma apresenta cantos e lados lixados e arredondados, a outra mostra o corte do papelão sem acabamento, com bordas acentuadas, com um "fio" cortante que agride o tecido de acabamento.
Mostro como preparar o papelão da capa em outro post: A CAPA.

FOLHA DE GUARDA

É essencial inserir uma folha de rosto e outra folha extra em branco, depois da folha de
guarda e ANTES do começo das folhas do livro propriamente ditas.
Apoiar a folha de guarda diretamente na folha oficial causa o tracionamento da folha, que é forçada a cada vez que o livro é aberto, ficando sanfonada e rasgada com o uso.
Além disso, é necessário o uso de folha de guarda marmorizada sempre e unicamente com tinta a óleo ou esmalte, para isolar as folhas em branco da acidez da cola usada na capa.
Abordo essa questão em outro post: MONOTIPIAS.

REFORÇO DE COSTURA

Um livro apresenta a técnica de costura com cadarços, mais tecido, dando sustentação ao
miolo do livro através de tiras de tecido que acompanham a costura e se apoiam na capa.
Outro, apenas um tecido fino colado à lombada interna.


OUTROS DETALHES RELEVANTES




 Corte arredondado nos cantos internos protege do movimento constante de abrir e fechar, que sempre deforma o papelão e "morde" o material de acabamento.
 

A etiqueta foi embutida no espelho. Ou seja, o espelho foi cortado e a etiqueta preencheu o espaço, não deixando diferença entre as superfícies. Como deve sempre ser guardado EM PÉ, entre outros livros, a fricção resultante pode arrancar uma etiqueta em relevo.

CONCLUSÃO

Este livro que ilustra o post não é nenhum em especial, sendo apenas um dos livros que fiz dentre os trabalhos desta semana. É um livro datado de 1970 e estava mais ou menos no mesmo estado de conservação do livro que lhe foi comparado, medindo 43,5 por 29 cm e com 300 folhas mais o índice.

O propósito deste post não é entrar em concorrência, muito menos criticar o trabalho alheio. Pretendo apenas demonstrar que é possível utilizar técnicas e materiais muito melhores, oferecendo um produto muito superior aos clientes e com ganhos para o encadernador.

Por exemplo, fiz este livro por R$.120,00 e acredito que faria o mesmo preço pelo outro livro, pois este é apenas um dentre cerca de mil livros que estou fazendo para este cliente, num trabalho continuado.

Ambos os trabalhos tem em comum o fato de NÃO CONSTITUIREM RESTAURAÇÃO, pois nenhum deles foi deixado igual ao dia em que foram criados, recebendo apenas reparos generalizados e acabamentos diferentes.

12 de dez. de 2012

Magister Paper

Magister Paper
Sublime
Westerpost

 Encontrei esta marca d'água num livro de 1925.

É muito rebuscada e com diversas informações.

A marca "I. N.A." , o nome "Magister Paper" e a data "1913", elemento que nunca vi em outros papéis.

Além disso, um conjunto quase heráldico, com uma flor de lis, um escudo e a repetição do INA em letras elegantes.

Quase aos em anos de fabricação, o papel apresenta acentuada oxidação, estando bem amarelado, mas ainda conserva elasticidade e não está ressecado.

Pesquisei sem sucesso sobre esse fabricante, mas registro aqui sua existência.





*   *   *   *   *   *   *
Sublime

Outra marca d'água que encontrei em um livro que estou restaurando, de 1916, é a marca Sublime, seguida do brasão  BTH.
Apresenta-se com boa elasticidade e quase branco. Essa folha é a folha de rosto do livro, porisso apresenta manchas castanhas formadas pela gordura de dedos que a manuseram.
 


*   *   *   *   *   *

WESTERPOST

Mais um, de um livro também de 1916, um exemplo de papel brasileiro de alta qualidade, ainda com boa elasticidade e com amarelamento semelhante aos melhores papéis fabricados na mesma época na Europa, é o famoso Westerpost, numa marca d'água simples e direta, com a inscrição Indust. Brasil., sem nenhuma ilustração.




S. O. R. & Co

Livro fabricado por volta de 1920, talvez pela indústria britânica.
Adicionado em 24 de Agosto de 2023.
Tem a figura de um gato, uma prensa, três livros fechados e um aberto.







27 de nov. de 2012

Coru Bond

Esta é a marca d'água do fabricante do papel Coru Bond

Feito em papel CORU BOND, da incipiente e atrasada indústria brasileira de papel, por uma fábrica no Vale do Paraíba, fundada em 1911, por um certo Dr. Cícero Prado, jovem advogado recém formado que compra a Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba, São Paulo.


A terra é pobre, coberta por guamirins e barba de bode e a parte baixa é dominada pelo Rio Paraíba. Foram precisos vários quilômetros de dique para domar o Rio e iniciar uma das primeiras plantações de arroz do Vale do Paraíba.

Devido a grande quantidade da palha de casca de arroz o Dr. Cícero Prado funda uma fábrica de papelão em1927, produzindo de 400 à 500 quilos por dia. A partir daí, mais quatro máquinas foram instaladas, produzindo cartolina de várias qualidades, papel tipo Kraft, papel pergaminho em vários padrões, papel fosco, papel impermeável, alem do célebre produto "Coru-Bond"... 

Com a matéria prima arroz, o resultado é uma fibra muito curta e a colas usada na massa eram altamente voláteis. O resultado é evaporação em curto prazo e muita oxidação, daí a razão para que um livro feito a partir desse material esteja tão quebradiço e ressecado apesar de ser de 1950. Isso ocorre principalmente em livros da região de São Paulo. Tenho trabalhado em livros de 1900, com papéis ingleses italianos  e mesmo papéis feitos no Brasil na mesma época, como o Westerpost , em estado de elasticidade perfeito.

Papelão "couro" Agropel
Em mais um exemplo de como uma palavra pode ser corrompida, sendo esquecida sua verdadeira origem, atualmente é fabricado um papelão denso, de cor castanha que é chamado de PAPELÃO COURO, utilizado principalmente como estrutura de pastas, bolsas e malas, na Indústria de calçados, vidraçarias, Indústria de bolsas, Indústria moveleira, Indústria de bebidas, Indústria de fogos de artifício e Indústria têxtil. É fabricado principalmente com casca de arroz.

Evidentemente não é fabricado a partir do couro, mas, originalmente chamava-se PAPELÃO CORU.

Há outro post sobre marca d'água neste blog.    



16 de nov. de 2012

Conto do Encadernador Louco

A mão esquerda é minha mão de apoio para cortar o papel.

Primeiro marco a medida, fazendo um risco superficial com o estilete. Antes marcava com um lápis, mas nunca sabia se cortava antes da marca, depois da marca ou no meio da marca. Portanto, corto no corte.

A regra para cortar sem errar é: Primeiro o trilho, depois o corte. Ou seja: Primeiro faz um risco leve em todo o sentido do corte e em seguida corta fundo. Não tem erro.

Dependendo da pressa ou do cansaço ou da burrice, é muito fácil cortar os dedos da mão esquerda que segura a régua. Depende ainda se a lâmina é nova e ainda com a vaselina que o fabricante usa para poder vender uma do lado da outra num estojo de plástico. Depende ainda mais se é uma maldita lâmina fabricada na China, aquelas que se desfazem em pequenos pedaços ao menor deslize da mão.

Mas depende principalmente da burrice.

Já cortei de todas as maneiras. Desde a ponta do indicador até a falange do meio. Bem no meio do polegar salvo pela grossura do unha. À esquerda e à direita desse mesmo polegar. Cortes rasos, cortes fundos, talhos, arranhões. De todas as formas possíveis.

A providência é lavar com iodo, queimar um pedaço de algodão e abafar o fogo quando começar a virar carvão e aplicar este carvão ao corte. Isso faz parar qualquer sangramente no mesmo instante. Envolva tudo com esparadrapo ou micropore e deixe ficar por uns dois dias.

Usando o estilete o dia inteiro, é inevitável se cortar.

Faz algum tempo, cortei um pedaço grande do lado direito do meu dedo indicador esquerdo.

Saiu inteiro. Um pedaço de uns três centímetros, ainda com um canto de unha, ficando bem visível a derme, mesoderme, endoderme e um pedaço de carne com pequenas veias. Segurei firme acima de minha cabeça para parar o sangue e fui tratar. Lavei, apliquei algodão queimado, enrolei com uns trinta centímetros de micropore e voltei para o atelier.

O pedaço estava lá, em cima da mesa, ao lado do estilete ainda com um fio de sangue. Pensei: esse livro vai ficar com meu DNA.

Me pareceu um pedaço tão grande de mim que merecia um sepultamento digno ao invés de simplesmente ir para o lixo. Fiquei com pena e deixei de lado, recomeçando o trabalho que nunca pode parar.

Limpando a mesa no fim do dia, o que fazer com aquele bife?

"Não sei se por ironia ou se por amor ", peguei um prego e preguei o pedaço de mim já meio seco, num canto da prateleira de ferramentas.

Bastou um mes, ou pouco mais, para cortar um pedaço da ponta do polegar direito, um pouco para a esquerda. Coisa pouca. E o pedaço acabou pregado ao lado do outro.

Macabro e de mau gosto! Sem dúvida, mas são pedaços meus e me levo em grande consideração, Vão agora me censurar por meu amor-próprio, minha autoestima?

Enfim, o corpo humano tem um fascinante poder de recuperação e bastam umas semanas para o dedo ficar como novo.


Mas o "acidente" seguinte foi estranho.

Juro que foi sem querer, mas posso jurar também um lampejo de olhar maligno para do dedo, pouco antes de cortar de novo um pedaço grande do pobre indicador esquerdo.

Esse novo pedaço bem considerável foi parar ao lado dos outros, devidamente equidistantes.

O que pretento? Juntar pedaços de mim mesmo para fazer um homem novo? Mostrar que sou um mártir, quando é evidente que sou apenas um desajeitado? Lembrar o quanto sou burro e descuidado? Ou um hellraiser ensandecido? Colecionar pedaços de mim?

Quem sabe?

Hoje, o corte está curado, apenas levemente áspero na cicatriz, mas tenho me flagrado olhando de forma sinistra para a minha pobre mão sinistra, enquanto a dextra segura o estilete e desliza perigosamente a alguns centímetros da carne.

27 de ago. de 2012

Envelhecimento e Tingimento de Papel

Um velho livro sempre há de apresentar as folhas amareladas, como efeito da oxidação e evaporação natural da celulose.

Uns mais escuros do que outros, dependendo sempre da acidez dos produtos usados no branqueamento do papel durante o processo de fabricação. Quanto mais distante da acidez neutra, mais rapidamente se dá o processo de escurecimento do papel.

No reparo ou restauro de um livro mais antigo, é quase sempre aconselhável substituir as folhas de rosto ou mesmo acrescentar uma ou duas para proteger as primeiras e últimas páginas do livro.

Folhas de rosto são aquelas folhas em branco no início e no fim do livro, logo depois e antes das folhas de guarda, estas normalmente marmorizadas.

Sempre uso DUAS ou mais folhas de rosto nos meus trabalhos, adicionando mais proteção ao conteúdo do livro.

Para que estas folhas tenham a mesma tonalidade do livro original, é preciso recorrer ao papel envelhecido artificialmente, do contrário as folhas brancas causarão um choque de contraste com as folhas oxidadas.

Sempre experimentando, tenho usado principalmente o envelhecimento por CAFÉ ou por PINHÃO.




 O método é simples.

Basta usar o café já coado, misturando-o à quantidade de água para obter a cor na intensidade desejada e acrescentar algumas gotas de formol. Mergulhar o papel no líquido, retirar, deixar escorrer o excesso e pendurar para secar à sombra.

Com a água resultante do preparo do pinhão, é a mesma receita.

Em nenhum dos processos ocorre a presença de gordura, o tingimento é uniforme e livros que fiz há mais de dez anos ainda permanecem com a mesma aparência.

21 de ago. de 2012

Papel Al Masso

Al Masso

Linen Ledger 

A marca do fabricante de papel Al Masso tornou-se sinônimo de certo tipo de papéis pautados vendidos em folhas soltas aqui no Brasil.

É até hoje indicado principalmente para trabalhos escolares, 

O mesmo processo de substantivação de nome próprio aconteceu com outros produtos pioneiros que dominaram o mercado de consumo, como rinso para todo sabão em pó, modes para todo absorvente íntimo, gilete para todas as lâminas de barbear, brâma para todas as cervejas, entre outros exemplos.

É chamado de "almaço" nos dicionários modernos, que muito erroneamente justificam como originado de "a lo maço". Cito o iDicionário Aulete e copio: [F.: Da loc. port. ant. a lo maço, referindo-se ao modo com que é feito.]. É a corrupção da origem da palavra, com o "Ç" aportuguesando definitivamente o termo.  

O papel que contém esta marca d'água "FIUME" que é o tipo, e "AL MASSO" que é a marca do fabricante, com linhas verticais e ranhuras horizontais,  faz parte de um livro que estou restaurando. É datado de 1908, mas o papel deve ter sido fabricado algum tempo antes.




Tendo mais de um século, ainda apresenta boa cerosidade, boa elasticidade e apenas uma leve oxidação generalizada sem manchas. Tem resistido bem ao processo de evaporação natural da celulose.
  
Numa rápida busca na internet, encontrei apenas referências a esse papel, principalmente na descrição de gravuras e documentos antigos, com descrições de escritos sobre esse suporte de Biron e Shelley datados de 1790.


Script: Arabic. Physical Description: Paper: Cream~colored European paper is used. The watermarks include the words of. Al Masso (p.l )1 and FIUME (p.21).

Bonhams 1793 : BYRON (MAJOR GEORGE GORDON DE LUNA ...
grandmotherly and most impartial paper could not ... address panel and red wax seal on verso, paper watermarked 'Al Masso', ...

tortue, Papyrus, parchemin et papier. Le document .... 300mm, com linhas de marca d'água verticais e a identificação do tipo de papel: “AL MASSO”. Marcas de ...

Papel branco; 210 X 304 mm. Tinta sépia e aguadas a cores. Bom. Contramarca da primeira metade do séc. XIX (c.a 1830), com a legenda: «AL MASSO», que ...  

O fabricante é italiano? Pois "fiume" é "rio" nesse idioma.


Regent Linen Ledger

Outro exemplo de marca d´água, como o encontrado num livro de 1929, traz uma coroa e a marca Regent Linen Ledger.


Na pesquisa direta, não consta da relação de marcas d´água de fabricação Americana, encontrada neste link, mas segue um mesmo padrão de denominação "linen ledger", comum em muitos fabricantes.  

Linen Ledger - Profile

Outra marca, de uma série de livros datados de 1921. trazem a mesma inscrição "linen ledger" com a palavra "profile".

 

18 de jul. de 2012

Um Encadernador Medieval no Século XXI

Um Encadernador Medieval no Século XXI

Esse dias compartilharam a foto de um encadernador trabalhando em um local extraordinário. Era como um antigo mercado, onde se via as colunas altas terminando em abóbodas. Mas o artesão utlizava uma furadeira elétrica para furar grossos volumes de folhas em formato ofício. Provavelmente iria amarrar cada um desses blocos passando o fio pelos buracos. Enfim, realizava uma técnica pobre e meramente comercial.


O que me chamou a atenção foi a disparidade da imagem, composta de um lugar antigo ao fundo e um homem usando um aparelho moderno em primeiro plano. Incongruente e conflitante.

Para qualquer pessoa, talvez isso seja tão normal quanto uma tela deTV HD de 50 polegadas na Capela Sistina, mas eu fiquei chocado.

Em todo meu processo de trabalho não uso nenhum equipamento e nem um wat de energia elétrica.

O mais volumoso e pesado é uma prensa pequena e antiga. Para manuseio, uso tres espátulas de diferentes formatos, um estilete largo, um pincel para a cola, martelo, alicate, uma raspadeira e um brunidor. Tenho uma régua de 60 centímetros que é talvez o objeto mais tecnológico do atelier, pois é japonesa e de aço inoxidável, que é uma maravilha. Para cortes mais pesados e longos, uso uma barra de cobre de um metro e quarenta como guia.

A mesa de trabalho em cedro, eu mesmo fiz, usando serrote e arco-de-pua. As prateleiras também.

Mas, e para dourar? Para douração, prendo os tipos entre dois longos parafuros e esquento na chama de uma vela.

Assim, se eu fosse transportado para a Idade Média, nu como nasci, continuaria trabalhando do mesmo jeito.

Mas qual é o problema? Não tenho dinheiro para comprar uma guilhotina, um hot stamping ou uma furadeira?

Pois não se trata disso.



Ao abdicar de máquinas e instrumentos industriais de qualquer espécie estou tratando o livro com cuidado e carinho. Uma guilhotina somente desfigura o livro, uma prensa de encaixe flagela as delicadas folhas, um facão deixa as folhas cortantes. São todos intrumentos muito invasivos que agridem o livro.    

Durante uns vinte anos, fui contador por ter aprendido com alguém a profissão. Cursei psicologia mas nunca exerci. Mas aprendi por conta própria a restaurar e encadernar e todos os aparelhos, móveis e instrumentos que utilizo são feitos por mim.

Assim eram os encadernadores medievais. Eram senhores de seu ofício e de seus instrumentos de trabalho.

Assim é o homem marxista perfeito. Livre, criativo e senhor de seu meio de produção.

Ambos completamente independentes de equipamentos produzidos por outros.


Porisso a imagem do homem com uma máquina num lugar antigo causou em mim esse impacto peculiar

21 de abr. de 2012

Parece Livro, é uma Caixa.

Compartilho da amizade de grandes artistas da encadernação através das redes sociais e admiro o resultado da aplicação das técnicas de encadernação que realizam em outros objetos.
Caixas que parecem Livros ao primeiro olhar são aqueles que mais atraem minha admiração.
Fiz alguns trabalhos nessa direção.
A maioria para presentear a amigos e bons clientes.
Como dão muito trabalho - até mais do que um livro comum - o preço de venda tem que ser elevado, mas cheguei a vender alguns em lojas de presente.
Hoje, realmente não tenho tempo para me dedicar a esse material.
Alguns sobraram, por serem apenas protótipos onde fiz muitas experiências e por sua estética duvidosa.
Mas me ocorreu mostrar esses trabalhos, onde faço uso de soluções muito particulares que podem ser úteis a quem quiser fazer igual.
*
Diversas Capas de Livros - Caixa, todos em couro com dourações manuais.
 
Capas de Livros Caixa
 Interior de Livros-Caixa, em papel marmorizado
 e caixas feitas em madeira ou papelão revestido.
Notem o arredondamento dos cantos internos 
e o uso de pinos de madeira e tiras de couro como fecho.


Interior de diversos livros-caixa
 Detalhe de diversos livros-caixa, mostrando como 
o arredondamento dos cantos internos aumenta a ilusão. 


Detalhe de Livros-caixa
 Perdoem a escolha de couros e efeitos, mas são apenas experiências feitas com os materiais disponíveis no momento. Atualmente, uso esses livros-caixa para guardar ferramentas pequenas, tipos especiais e livros quase desintegrando que me dão dó restaurar.

10 de abr. de 2012

Dicas Para Conservação de Livros

Livro é um objeto frágil.
*
O prosaico ato de ler já contribui para sua deterioração, graças à precariedade da indústria gráfica e a falta de padrões dos editores. 

Começando pela análise do papel, normalmente é de baixa qualidade, comprovável pela alta porosidade causada pela economia de agente agregador da massa de celulose, resultando em evaporação acelerada e pouca resistência à umidade e fungos.
Fazem grande economia de margens, tanto nas bordas internas quanto nas externas, resultando que o leitor tem que forçar a abertura e assim deforma o livro. As colas usadas são de alta acidez, soltando-se e ficando quebradiças já na primeira leitura.

As capas são precárias. Enrolam para fora e soltam-se do miolo do livro, sem mencionar que aquelas bonitas letras douradas dos livros do Harry Potter e da série Crepúsculo somem em pouco tempo por força da fricção.

Para mitigar um pouco o sofrimento deles, passo umas dicas de conservação.

FUNGOS EM LIVROS DE COURO

Limpe o couro com um pano umedecido em detergente tipo "veja" multi-uso diluído 50/50, em seguida friccione o remédio VODOL (nitrato de micozanol) líquido. A receita serve para qualquer objeto de couro ou papel.

HIDRATAÇÃO DO COURO

Limpe o couro da mesma forma acima, depois use hidratante normal, tipo Vasenol, Nívea, etc., passando com uma esponja ou um pedaço de pano limpo. 

Se tiver sinais de fungo, acrescente Vodol creme ou líquido e hidrate com essa mistura.

LAVANDO O LIVRO

Se comprou um livro no sebo, ou se emprestou para alguém e voltou sujo, ou se emprestou um livro sujo de alguém, ou seus livros estão sujos mesmo, pode lavar as capas que sejam plastificadas ou de papel couchet. 

Use detergente multi-uso dliluído 50/50, mergulhe o pano no recipiente, torça bem e esfregue rapidamente até tirar toda a gordura e sujeira da capa. 
Pode passar de leve no alto das folhas se estiverem muito sujas. 
Em seguida passe um pano seco e limpo. Aqueles livros de capa dura do Clube do Livro são inteiramente laváveis. Siga sempre mergulhando o pano na solução de detergente e torcendo bem.

PASSANDO CERA DE ABELHA

Se há um elemento inestimável para conservação de livros, é a bendita cera de abelha. Possui incríveis propriedades anti-fungo e anti-mofo, também mantendo distante cupins, traças e brocas. 

Uso principamente para encerar os fios de costura do livro.
Mas também pode ser usada com sucesso para:

1) esfregar em manchas de fungo e mofo das folhas;

2) esfregar na parte superior das folhas com livro bem fechado;

3) encerar as capas de livros antigos, garantindo às folhas ressecadas e porosas um pouco de proteção.

Vale a pena passar numa loja de material de construção, daquelas antigas onde tem de tudo, e comprar umas gramas de cera. É muito barato e dura muito tempo. Se tem casa algum objeto de madeira com aquela cultura de fungo verde, lave e passe a cera. Fica livre do fungo e bonito.



O Manuseio do Livro

Os critérios para manusear um livro são determinantes para uma maior vida útil e de sua permanência no acervo. Recomenda-se portanto, a adoção de normas e procedimentos básicos, como por exemplo o treinamento de pessoal, que contribui consideravelmente para a conservação preventiva do acervo, seja pequeno e estimado ou grande e inestimável.

♦ Não manusear livros ou documentos com as mãos sujas, lavando as mãos após cada refeição.
♦ Não manter plantas aquáticas, guarda-chuvas e capas molhadas junto às prateleiras.
♦ Em dias muito úmidos, evitar abrir as janelas.
♦ Não fumar nem consumir alimentos perto dos livros.
♦ Não usar fitas adesivas, durex de qualquer tipo, colas plásticas, grampos ou clipes metálicos nas folhas e documentos guardados nos livros.
♦ Não dobrar os cantos das páginas (orelhas), pois ocasiona o amolecimento e rompimento das fibras. Nunca virar as páginas segurando pelos cantos.
♦ Usar marcadores próprios, finos, evitando efetuar marcas e dobras.
♦ Não retirar o livro da estante puxando pela borda superior da lombada.
♦ Os livros devem permanecer em posição vertical, em pé. Nunca acondicioná-los com a lombada para baixo ou para cima.
♦ Nunca manter os livros muito compactados nas estantes.
♦ Fazer o transporte dos livros individualmente.
♦ Nunca umedecer os dedos para virar as páginas do livro. O ideal é virar pela parte superior da folha, procurando a página e abrindo todas as folhas de uma só vez.
♦ Não apoiar os cotovelos sobre os volumes de grande porte durante a leitura.
♦ Não fazer anotações, particulares ou profissionais, em papéis avulsos e colocá-los entre as páginas de um livro. Eles deixam marcas e permitem a penetração de sujeira e umidade.
♦ Evitar forçar a abertura para tirar cópias de livros. Esta prática danifica não só a encadernação como também o papel.
♦ Não utilizar espanador e produtos químicos para a limpeza do acervo e a área física da biblioteca, use trincha em local afastado das estantes. Para evitar a distribuição de poeira sobre os volumes, o piso deverá ser limpo com pano úmido.

A ilustração do “Livro Monstro de Harry Potter”?

Ora, o segredo para o livro não morder é: sempre tratá-lo com carinho.