História, Arte e Técnica da Encadernação Clássica.

21/04/2012

Parece Livro, é uma Caixa.

Compartilho da amizade de grandes artistas da encadernação através das redes sociais e admiro o resultado da aplicação das técnicas de encadernação que realizam em outros objetos.
Caixas que parecem Livros ao primeiro olhar são aqueles que mais atraem minha admiração.
Fiz alguns trabalhos nessa direção.
A maioria para presentear a amigos e bons clientes.
Como dão muito trabalho - até mais do que um livro comum - o preço de venda tem que ser elevado, mas cheguei a vender alguns em lojas de presente.
Hoje, realmente não tenho tempo para me dedicar a esse material.
Alguns sobraram, por serem apenas protótipos onde fiz muitas experiências e por sua estética duvidosa.
Mas me ocorreu mostrar esses trabalhos, onde faço uso de soluções muito particulares que podem ser úteis a quem quiser fazer igual.
*
Diversas Capas de Livros - Caixa, todos em couro com dourações manuais.
 
Capas de Livros Caixa
 Interior de Livros-Caixa, em papel marmorizado
 e caixas feitas em madeira ou papelão revestido.
Notem o arredondamento dos cantos internos 
e o uso de pinos de madeira e tiras de couro como fecho.


Interior de diversos livros-caixa
 Detalhe de diversos livros-caixa, mostrando como 
o arredondamento dos cantos internos aumenta a ilusão. 


Detalhe de Livros-caixa
 Perdoem a escolha de couros e efeitos, mas são apenas experiências feitas com os materiais disponíveis no momento. Atualmente, uso esses livros-caixa para guardar ferramentas pequenas, tipos especiais e livros quase desintegrando que me dão dó restaurar.

10/04/2012

Dicas Para Conservação de Livros

Livro é um objeto frágil.
*
O prosaico ato de ler já contribui para sua deterioração, graças à precariedade da indústria gráfica e a falta de padrões dos editores. 

Começando pela análise do papel, normalmente é de baixa qualidade, comprovável pela alta porosidade causada pela economia de agente agregador da massa de celulose, resultando em evaporação acelerada e pouca resistência à umidade e fungos.
Fazem grande economia de margens, tanto nas bordas internas quanto nas externas, resultando que o leitor tem que forçar a abertura e assim deforma o livro. As colas usadas são de alta acidez, soltando-se e ficando quebradiças já na primeira leitura.

As capas são precárias. Enrolam para fora e soltam-se do miolo do livro, sem mencionar que aquelas bonitas letras douradas dos livros do Harry Potter e da série Crepúsculo somem em pouco tempo por força da fricção.

Para mitigar um pouco o sofrimento deles, passo umas dicas de conservação.

FUNGOS EM LIVROS DE COURO

Limpe o couro com um pano umedecido em detergente multi-uso diluído 50/50, em seguida friccione o remédio VODOL (nitrato de micozanol) líquido. A receita serve para qualquer objeto de couro ou papel.

HIDRATAÇÃO DO COURO

LImpe o couro da mesma forma acima, depois use hidratante normal, tipo Vasenol, Nívea, etc., passando com uma esponja ou um pedaço de pano limpo. 

Se tiver sinais de fungo, acrescente Vodol creme ou líquido e hidrate com essa mistura.

LAVANDO O LIVRO

Se comprou um livro no sebo, ou se emprestou para alguém e voltou sujo, ou se emprestou um livro sujo de alguém, ou seus livros estão sujos mesmo, pode lavar as capas que sejam plastificadas ou de papel couchet. 

Use detergente multi-uso dliluído 50/50, mergulhe o pano no recipiente, torça bem e esfregue rapidamente até tirar toda a gordura e sujeira da capa. 
Pode passar de leve no alto das folhas se estiverem muito sujas. 
Em seguida passe um pano seco e limpo. Aqueles livros de capa dura do Clube do Livro são inteiramente laváveis. Siga sempre mergulhando o pano na solução de detergente e torcendo bem.

PASSANDO CERA DE ABELHA

Se há um elemento inestimável para conservação de livros, é a bendita cera de abelha. Possui incríveis propriedades anti-fungo e anti-mofo, também mantendo distante cupins, traças e brocas. 

Uso principamente para encerar os fios de costura do livro.
Mas também pode ser usada com sucesso para:

1) esfregar em manchas de fungo e mofo das folhas;

2) esfregar na parte superior das folhas com livro bem fechado;

3) encerar as capas de livros antigos, garantindo às folhas ressecadas e porosas um pouco de proteção.

Vale a pena passar numa loja de material de construção, daquelas antigas onde tem de tudo, e comprar umas gramas de cera. É muito barato e dura muito tempo. Se tem casa algum objeto de madeira com aquela cultura de fungo verde, lave e passe a cera. Fica livre do fungo e bonito.



O Manuseio do Livro

Os critérios para manusear um livro são determinantes para uma maior vida útil e de sua permanência no acervo. Recomenda-se portanto, a adoção de normas e procedimentos básicos, como por exemplo o treinamento de pessoal, que contribui consideravelmente para a conservação preventiva do acervo, seja pequeno e estimado ou grande e inestimável.

♦ Não manusear livros ou documentos com as mãos sujas, lavando as mãos após cada refeição.
♦ Não manter plantas aquáticas, guarda-chuvas e capas molhadas junto às prateleiras.
♦ Em dias muito úmidos, evitar abrir as janelas.
♦ Não fumar nem consumir alimentos perto dos livros.
♦ Não usar fitas adesivas, durex de qualquer tipo, colas plásticas, grampos ou clipes metálicos nas folhas e documentos guardados nos livros.
♦ Não dobrar os cantos das páginas (orelhas), pois ocasiona o amolecimento e rompimento das fibras. Nunca virar as páginas segurando pelos cantos.
♦ Usar marcadores próprios, finos, evitando efetuar marcas e dobras.
♦ Não retirar o livro da estante puxando pela borda superior da lombada.
♦ Os livros devem permanecer em posição vertical, em pé. Nunca acondicioná-los com a lombada para baixo ou para cima.
♦ Nunca manter os livros muito compactados nas estantes.
♦ Fazer o transporte dos livros individualmente.
♦ Nunca umedecer os dedos para virar as páginas do livro. O ideal é virar pela parte superior da folha, procurando a página e abrindo todas as folhas de uma só vez.
♦ Não apoiar os cotovelos sobre os volumes de grande porte durante a leitura.
♦ Não fazer anotações, particulares ou profissionais, em papéis avulsos e colocá-los entre as páginas de um livro. Eles deixam marcas e permitem a penetração de sujeira e umidade.
♦ Evitar forçar a abertura para tirar cópias de livros. Esta prática danifica não só a encadernação como também o papel.
♦ Não utilizar espanador e produtos químicos para a limpeza do acervo e a área física da biblioteca, use trincha em local afastado das estantes. Para evitar a distribuição de poeira sobre os volumes, o piso deverá ser limpo com pano úmido.

A ilustração do “Livro Monstro de Harry Potter”?

Ora, o segredo para o livro não morder é: sempre tratá-lo com carinho.

30/03/2012

O Mundo Reciclado

Houve uma época na história econômica da humanidade denominada de “Revolução Industrial”, quando as primeiras inovações técnológicas surgiram como resposta à crescente demanda por bens e serviços.

O pequeno tecelão fiava algumas peças de roupa por mês, mas as pessoas queriam comprar mais. Então vieram as máquinas de fiar, movidas a força humana e depois a vapor e depois pela eletricidade.

Na indústria livreira, os livros eram produzidos para poucos, manuscritos ou impressos com estampas fixas. No início do processo de industrialização do livro, com a utilização de tipos móveis, ospapéis eram feitos com tecido de algodão ou seda. O resultado era folhas resistentes, que não amarelavam ou rasgavam. Sobrevivem livros dessa época até hoje, apresentando-se completamente brancos e íntegros, invulneráveis a pragas.

Livros populares começaram a surgir. Eram baratos, feitos de massa de celulose. Apesar de feitos de massa de madeiras nobres ainda abundantes e baratas obtidas nas florestas da África e das Américas, não conseguiam cativar a atenção da classe burguesa emergente.

Mundo antigo e mais vulnerável às doenças, foi seduzido por uma mentira. Surgiu o boato de que os bons e resistentes livros feitos com fibras de tecido eram feitos a partir de… BANDAGENS USADAS DOS HOSPITAIS!

O resultado foi imediato, acabando com os papéis de tecido e abrindo espaço para os livros de celulose.



Hoje em dia, há uma glamurização do papel reciclado. Pessoas de bom gosto escolhem e pagam mais caro por papéis com cara de artesanal, feitos sabe-se lá do que.

Meus livros só foram árvore. Meus couros só foram cabra e boi. Não reciclo, reaproveito.

Nessa sociedade consumista, fabrica-se com duração programada. Steve Jobs foi o grande profeta do deus Obsolescência Programada.



Celulares e câmeras são fabricadas com pré-determinado número de ligações e fotos. Se acabou, não tem conserto.

Todo ano troca de agenda, de livros didáticos, de vade-mecuns e outros livros jurídicos efêmeros e cadernos escolares abandonados pela metade.

Não recicle, reaproveite para sempre, use até o final.

22/03/2012

Santa Wiborada, santa dos encadernadores

◊Lido “A Galáxia de Gutemberg”, de Marshall McLuhan, ficaram algumas curiosidades sobre livros em geral. Uma que me lembro com estranheza é que pessoas que lêem muito ficam com dor de garganta, pois os músculos involuntários da garganta se movimentam como se estivéssemos recitando.

◊Explica que até lá pelo século XIV a leitura era apenas em voz alta. Os livros eram escritos para serem recitados, com regras, ou ausência das regras de pontuação, então vigentes que respeitavam a respiração do orador, a salivação e a entonação apropriada. Por isso os monges se isolavam em celas: para fazer suas leituras sem atrapalhar o próximo. Com o advento da vulgarização da leitura, veio a “leitura silenciosa”, quando as pessoas passaram a ler para si mesmas. Nos anos sessenta, ainda era assim que as professoras se referiam ao ato de cada um ler suas lições em sala de aula.

◊Curiosidades sobre livros, como essas, servem para aprimorar nossos conhecimentos, pois, após a Educação vem a Sofisticação, ou seja, o refinamento, a sintonia fina que diferencia das pessoas educadas em massa.

◊Um livro cheio dessas extraordinárias informações diferenciadoras, com pérolas preciosas de deliciosa cultura é o “Historia General del Libro Impreso” de Rosarivo, feito para um congresso de indústria gráfica da Argentina em 1964, que está escrito assim na folha inicial: “M.DCCCCLXIIII”, o que não constitui um erro, como a princípio julguei, mas uma forma especial de escrever em caracteres romanos, comum em livros do século XIV.

◊Introduz com a história da padroeira dos encadernadores e, por extensão, dos bibliófilos: Santa Wiborada.

◊Era Bibliotecária do Monastério de Saint Gall, segundo alguns, ou monja que trabalhava nas oficinas de encadernação, segundo outros e mais provável, enfrentava a ameaça de bárbaros que marchavam sobre a cidade e iriam passar sobre o monastério saqueando e queimando, até encontrar as muralhas da cidade. Os monges já estavam fugindo aterrorizados, mas ela os convenceu a esconder as obras, enterrando-as nas valas defensivas da cidade. Passaram aquele dia 1 de maio de 925 e a noite que o seguiu pondo os preciosos manuscritos em local seguro. Os bárbaros húngaros chegaram, arrasaram o monastério e avançaram sobre a cidade fortificada. Após três dias de luta sangrenta, foram repelidos. Foram encontrar Wiborada mutilada e morta, jazendo sobre o local onde haviam enterrado os seus preciosos livros.

◊Depois de penar para encontrar referências sobre ela, pedi ajuda ao sítio Cadê meu Santo e esses caras absolutamente rápidos e prestativos me mandaram texto e foto, com preciosas informações. Confirmaram o nome, que pensei de início ser uma argentinização, era também chamada Guiborath e/ou Weibrath. Que era encadernadora e profetiza, sendo atribuído a ela profecia sobre a chegada dos bárbaros húngaros. Um de seus atos piedosos foi transformar sua casa num hospital para os pobres e ido servir a Deus num monastério. Sites oficiais confirmam sua martirização.


Foi a primeira mulher a ser canonizada pela igreja católica e isso ainda em 1.047. Seu dia é o 2 de Maio e é representada como uma freira beneditina segurando um livro e um machado.

◊Mulher de valor e santa guerreira, já praticava lutar pelo livro.


 ◊Que por todos nós interceda!

27/01/2012

A Função Objetiva e Social do Encadernador Clássico


Função Objetiva

O exercício da profissão de encadernador tem se tornado meramente de atendimento à demanda do mercado.


O encadernador comercial faz um livro contábil-fiscal segundo o menor custo, considerando sua duração efêmera de apenas cinco anos, aplicando uma técnica que permite que folhas sejam substituídas sempre que necessário e sem deixar marcas, pois é desejo de seu cliente alterar os registros contábeis a qualquer tempo. Ainda, encaderna monografias escolares, publicações e livros com ou sem valor bibliográfico, utilizando dessa mesma técnica, à qual fica limitado. Chamado a atender um cliente, oferece sempre seu produto mais acessível e a técnica a seu alcance.


Contudo, a função objetiva de um Profissional de Encadernação vai muito além desse atendimento automático às demandas do mercado. Deve abranger desde a indicação de técnicas mais apropriadas a cada trabalho até os cuidados com o acervo geral do cliente.



Cuidando do Acervo

Ao prestar serviços a seu cliente, o encadernador deve observar a situação do acervo de livros, sejam eles contábeis, fiscais, públicos ou privados. Sua obrigação ao iniciar o trabalho compreende os cuidados seguintes: 


- Verificar se estão guardados em local seco e arejado, sem incidência de luz solar direta, com pisos cerâmicos ou impermeáveis, principalmente verificando se há goteiras ou infiltrações de umidade.


- Observar se há infestação de pragas, como traças e cupins, bem como pesquisar junto ao cliente se há histórico ou mesmo se há sinais de uso de venenos de longa permanência, como BHC, DDT e organoclorados, nocivos à saúde humana.


- Manter o acervo distante da cozinha, refeitório, despensa ou banheiros, evitando contaminação por baratas e outros insetos, exposição dos livros a fontes de calor, acúmulo de gordura e umidade.


- Indicar ao cliente o uso de papéis de qualidade e que sejam de acidez neutra.


Concluindo que o acervo inspira cuidados adicionais ou se encontra em estado precário, o encadernador deve alertar o cliente e sugerir as medidas necessárias para melhor conservação.



Aplicando a Melhor Técnica

É óbvio para qualquer profissional que deve ser aplicada a técnica adequada e utilizados os materiais apropriados a cada tipo de livro. Mas não tenho visto isso ocorrer na prática. O que vejo é a aplicação indiscriminada da mesma técnica primária e dos mesmos materiais sintéticos frágeis, seja nos livros fiscais efêmeros, em documentos públicos de validade indeterminada, ou em obras de grande valor bibliográfico. É a regra do menor custo e do menor benefício. O encadernador oferece o mínimo para não correr o risco de perder o trabalho e o cliente aceita por achar que esse é o único produto disponível. O resultado dessa equação pelo mínimo é a perda de credibilidade do profissional e a insatisfação do cliente, além da deterioração acelerada de todo o acervo.


- Assim, livros de maior peso ou dimensão, como os livros de cartório, devem receber reforços adicionais, com uso de materiais resistentes ao manuseio repetido e que permitam ser higienizados com regularidade.


- Os livros de valor sentimental ou bibliográfico devem ser encadernados com sensibilidade, utilizando materiais duráveis e nobres, conservados todos os itens, como capa, contra-capa, orelhas e anotações, resultando num trabalho que complementa a obra e respeita a estética da época em que foi editada. Nesses casos,sempre evitar a padronização e procurar manter a singularidade de cada obra.


- Os livros fiscais, monografias e outros onde é admitido o uso de acabamento sintético tipo vulcapel, podem ser reforçados para que cumpram seu tempo de uso com alguma dignidade e não se desfaçam ao primeiro manuseio.


Em qualquer caso, o cliente é merecedor de receber o melhor benefício pelo melhor custo. Cabe ao Encadernador oferecer as técnicas mais apropriadas e assessorar o cliente em todos os aspectos, valorizando sua nobre ciência e enobrecendo o acervo. 



Função Social

Acredito que a encadernação segundo a boa técnica clássica tem importante função social.


Quando aplicada em livros oficiais, garante sua integridade e inviolabilidade, prevenindo fraudes e interferências. Um livro sólido e bem conservado tem mais credibilidade, muito mais fé legal, do que um livro frágil e dilacerado pelo simples manuseio.


Os livros oficiais guardam a história dinâmica de nossa Sociedade, onde são registrados os nascimentos, casamentos e óbitos, as transações imobiliárias e os contratos entre os entes sociais. A encadernação, aqui compreendida desde o assessoramento do acervo, é o mais importante item de conservação dessas informações.


Quando aplicada em livros em geral recém editados, garante a qualidade do produto final e respeito ao consumidor.


Adotada em obras de valor bibliográfico, preserva-as. Outras gerações poderão apreciar suas qualidades, uma vez que suas características originais foram respeitadas.


Ao adotar técnicas que dão ao livro resistência e longevidade, também contribui para o uso racional de recursos naturais, pois um livro corretamente encadernado e preservado nunca precisa ser refeito.

13/12/2011

A FUNÇÃO de cada coisa na Encadernação.

A boa técnica de encadernação tem uma série de detalhes que aparentemente têm apenas função estética. Na verdade, prestam-se exercer funções importantes, das quais depende a durabilidade e resistência da encadernação e de seu conteúdo, o livro.


I - A função do PAPEL MARMORIZADO na folha de guarda.

O papel marmorizado serve para isolar as folhas do livro da alta acidez do papelão e das colas que unem o livro à capa.


O papel marmorizado esconde imperfeições do papelão, disfarça os cadarços e fios da costura e marcas deixadas pela espátula. 



II – A função da NERVURA.

A principal função das nervuras é manter a douração longe do atrito com a mesa onde o livro é aberto. Isso ocorre principalmente nas obras de grande tamanho e peso, que, antigamente, eram lidas ou até mesmo caligrafadas sobre uma mesa, ficando o título do livro e outras informações gravadas a ouro na lombada longe da superfície da mesa graças às nervuras em relevo. 



III – A função do CABECEADO.

O cabeceado serve como complemento à costura. Também decorrente dos livros de grande tamanho e peso, compostos de folhas de pergaminho ou de papel de muita espessura. Assim o cabeceado mantém unidas as pontas dos cadernos. Serve para consolidação da costura.

É complementar a função de proteger o espaço entre a lombada e a capa da penetração de sujeira e insetos. 



IV – A função do corte nos cantos internos da capa.

É necessário proceder um corte de alguns milímetros nos cantos esquerdos (ou internos) da capa e da contra-capa, para prevenir contra a ação de alavanca que a abertura e fechamento do livro provoca, com deformação do papelão, mordendo o couro ou outro material de acabamento. Em qualquer capa dura já desgastado pelo tempo, a área da capa que sempre está mais prejudicada é aquela próxima aos cantos internos perto da lombada.



V - A função do Pincel para aplicar cola


Há grande diferença entre aplicar cola com pincel ou com rolo.
O pincel aplica a cola profundamente, forçando a penetração da cola nos microporos do papel e do couro.
Com o rolo a aplicação é superficial.

30/11/2011

Encadernação

A boa técnica de encadernação clássica  implica numa sequência de procedimentos realizados de maneira correta e segura.
Com a banalização do livro nos últimos quinhentos anos, banalizou-se também a técnica, ficando reservada aos livros de grande valor bibliográfico ou documental.
Novos procedimentos passaram a ser adotados nos livros comuns, bem como novos materiais. O Encadernador passou a exercer outros ofícios, como o de Restaurador e de Dourador, na tentativa de agregar valor à sua atividade.
A grosso modo, identificamos que existem atualmente três escolas, ou vertentes da Encadernação. A Clássica, a Decorativa e a Comercial.



Clássica de Florindo & Costa
A Encadernação Clássica


Aquela onde são utilizadas técnicas manuais demoradas e elaboradas, com utilização de materiais nobres e absoluto respeito à obra encadernada. 


A Encadernação Decorativa


Bela e apropriada "Contemporânea" de Sergio Pitol,
Utiliza-se de princípios elementares da encadernação clássica, privilegiando o efeito decorativo segundo preferências pessoais do encadernador, a partir de sua etnia e cultura particular ou das tendências e modismos de seu tempo. É também chamada "Encadernação de Arte" ou "Contemporânea" e faz uso indiscriminado de materias nobres e sintéticos.



Comercial
A Encadernação Comercial


Conjunto de técnicas básicas que se utiliza de materiais sintéticos e privilegia o baixo custo e a padronização, indiferente ao conteúdo e valor da obra encadernada. Atende à demanda por livros didádico-acadêmicos, fiscais e obras populares.
São suas características a fragilidade e o baixo custo.

Com a banalização da arte de encadernar, vem ocorrendo a perda de seus valores básicos e a confusão entre estas três escolas de encadernação.

Encadernação mista

Imitação de Clássico, A.Solarov
Encadernações que meramente imitam o design clássico, com aplicações de ferros, marcações e dourações sobre material sintético.



Ao confrontar qualquer pessoa que se utiliza regularmente de serviços de encadernação, enfrento o pior inimigo de todos os encadernadores: A IGNORÂNCIA. 

Tenho constadado que o cliente, seja ele um bibliófilo, um cartorário e qualquer pessoa leiga, não tem a menor idéia do que seja um "livro" e o que seja "encadernação" pois até então conhece somente encadernações comerciais frágeis e efêmeras.


Prova dessa realidade é demonstrada num vídeo recentemente divulgado, mostrando um livro sendo desmontado, reparado, costurado, recebendo indefectível cabeceado e uma capa em tecido.

É necessário alertar aos meus clientes e amigos, que essa não é a técnica clássica de restauração. É uma técnica de reparação, parcialmente correta.


Utiliza-se de diversos procedimentos inadequados, como:
* Passar pó de borracha para limpeza diretamente com as mãos, transfere ao papel a gordura dos dedos.
*  Aplicar papel de arroz diretamente sobre o texto com cola ácida, aparentemente de base PVA.
*  Usar tiras de tecido coladas e enrroladas, para a costura, que são muito abrasivas e ferem as folhas frágeis do velho livro.
* Colar a folha de rosto nova diretamente ao longo da lateral da primeira e da última folha do livro, provocando o sanfonamento da primeira folha do livro.
*  Bater a lombada de um livro de folhas frágeis e quebradiças e DEPOIS de colar.
Cabeceado grosso
*  Costurar o cabeceado com grossos fios abre brechas para entrada de poeira, insetos, umidade e acelera o ressecamento do papel.
* Usa folha em branco para a guarda, mas deveria ter usado uma folha de guarda envelhecida e da mesma cor do resto da obra ou uma folha marmorizada, protegendo o livro da acidez das colas da capa.
* Rejeitou o couro original e usou o papelão velho. O couro original precisa ser conservado, mesmo um fragmento, e é adequado usar papelão novo para dar mais estrutura ao livro. Mas não! Jogou o couro fora e usou o papelão!
* A jovem trabalha com pó de borracha e limpa com escova SEM NENHUMA PROTEÇÃO.
* Por fim, dá acabamento ao trabalho com TECIDO comum, que não respeita a integridade da obra centenária, nem sua história. Seria obrigatório usar couro parecido com o original.


Não sei a origem do vídeo, sem som, e acredito que os encadernadores não tiveram a pretensão de que esse fosse um trabalho de restauração. É apenas um trabalho de conserto, provavelmente de orçamento limitado. 

Limpando com Proteção

reliure classique
classic bookbinding


 

23/11/2011

Manifesto da Encadernação Clássica

Para que não sejam esquecidas e abandonadas as boas técnicas da encadernação clássica tradicional.
Defendendo as boas técnicas que asseguram aos livros Longevidade, Qualidade e Beleza.




Ou no texto:

Manifesto da Encadernação Clássica

1 – Todos os livros serão encadernados obedecendo as técnicas elementares da Encadernação Clássica.

2 – Todos os livros receberão a adição de uma folha de guarda, uma folha de rosto e uma folha adicional, tanto no início como no fim.

3 – Nenhum livro terá lombada falsa de espessura igual à das capas, não podendo exceder a espessura de um papel cartão.

4 – Todas as capas terão as laterais e os cantos do papelão previamente suavizados e arredondados.

5 – Nenhum livro será cortado ou refilado e fica abolida a guilhotina.

6 – Somente os trabalhos feitos de cadernos costurados serão chamados de “Livros”.

7 – Trabalhos feitos com folhas soltas amarradas ou coladas serão chamados de “Blocos”.

8 – Trabalhos com acabamento em material frágil receberão reforço interno em tecido ao longo da lombada.

9 – É obrigação profissional e compromisso ético de todo encadernador preservar a integridade dos livros que lhe são confiados, jamais mutilando ou desfigurando a obra original, conservando todos os seus componentes e informações.

10 – Todos os esforços são justificáveis para preservação das técnicas clássicas.


Se fosse enumerar todos os itens que são imprescindíveis em QUALQUER ENCADERNAÇÃO, não só nas clássicas, não seria mais um decálogo.
Se fosse criticar os cursos básicos de "encadernação" que proliferam em todo lugar, transmitindo aos bem intencionados leigos ensinamentos errados, parciais e prejudiciais aos livros, perderia muitos amigos e seria evitado por ser muito radical.
Enfim, esse é um trabalho aberto a sugestões e críticas, pois quem fala o que não deve ouve o que não quer.

11/11/2011

Monotipias Recentes

Antes que virem folha de guarda nas minhas encadernações.

Monotipias, ou marmorizados, técnica de tinta esmalte sobre papel, todas no tamanho 66X96 cm.





O Livro Torto

Curiosidade.

Um livro pode ser torto.


Ou nem tanto.