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8 de out. de 2018

Digitalizar é um perigo

De uns tempos para cá, os cartórios estão sendo obrigados a digitalizar todos os livros.
Para preservação das informações, dizem.
Mas, durante o processo de digitalização, os livros sofrem mutilações irreparáveis.

Para oferecer um custo menor ao cliente, usam o seguinte método:

 - Arrancam o miolo da capa;
 - Guilhotinam o lado esquerdo, as margens internas, sem desfazer a costura, até o limite de 22 centímetros de largura da folha, para caber na digitalizadora;
 - Furam, amarram as folhas e colam este miolo na mesma capa, agora muito maior do que o miolo.

O resultado é um livro sem margens internas, com a amarração muito perto do texto.

Demonstro aqui como ficou um livro antigo que foi guilhotinado e amarrado. As folhas não se abrem inteiramente e com o uso vão se partir na dobra forçada.

Detalhe de livro guilhotinado e sem nenhuma margem.

Livro guilhotinado e amarrado (bloco)

Em seguida, mostro como ficou um livro antigo que não foi guilhotinado e foi digitalizado com as folhas intactas, o que permitiu que fosse corretamente costurado. As folhas se abrem sem esforço e completamente.

Detalhe das margens e da costura

Livro intacto, com cadernos.
Falta aos digitalizadores técnicas que respeitem a integridade dos livros.

6 de dez. de 2017

Réquiem para um livro mutilado

Há somente uma maneira de reparar e encadernar livros:

Com muito trabalho e com a melhor técnica.

Qualquer outra forma resulta em livros mutilados. Esta semana apareceu este pobre livro.

A capa foi feita com baixos padrões, material frágil e sem nenhum tipo de reforço. Não foi feito há muito tempo, talvez uns quatro anos atrás, no máximo.


O ato criminoso foi praticado no miolo do livro. Pois foi simplesmente guilhotinado na dobra dos cadernos.


E depois furado com furadeira elétrica e amarrado. Vejam como as margens internas ficaram reduzidas.


Desta forma, já não é mais um "livro", mas apenas um bloco de folhas soltas.

d

Agora, se tentar juntar as folhas e formar cadernos novamente, com uma fita de papel vegetal fino unindo as folhas, por exemplo, vai ficar um volume enorme de mais de 150 fitas dobradas, pois é um livro de 300 folhas.

É de chorar ver esse tipo de dano causado a um livro.

E não tem desculpa para o que foi feito. O papel ainda estava inteiro, com alguma oxidação mas ainda maleável.

O encadernador desconhece as técnicas e não tem nenhum respeito pelo material.

O titular do cartório permitiu que esse desastre acontecesse por desinteresse, ignorância ou mera economia.

É uma pena.

Aqui, marca d'água do fabricante do papel, em 1925.


O pior de tudo é que, certamente, este tipo de crime continua sendo cometido, mesmo nesse momento, em mais de um lugar neste Brasil.

27 de set. de 2017

O maior inimigo do livro

O maior inimigo de um livro é um encadernador sem técnica.

O Tempo não é inimigo do livro, pois o Tempo valoriza a obra bem feita e passa pelo livro naturalmente.

As Pessoas não são os piores inimigos do livro, pois mesmo o manuseio mais descuidado apenas revela a utilidade e o interesse das pessoas pelo conteúdo do livro.

O maior inimigo de um livro é um encadernador ruim, preguiçoso, mesquinho e desrespeitoso.



Vejam estes livros.

São três livros, datados de 1893 a 1914, com marca d'água AL MASSO, que sofreram uma interferência desastrosa de alguém que CORTOU OS CADERNOS! Em seguida serrou as folhas para somente amarrar, fazendo diversos pequenos cortes talvez para penetração de sua cola. E USOU COLA DE SAPATEIRO!!!!


Transformou o livro em um BLOCO.
Não restaurou as folhas
 e guilhotinou os quatro lados do livro.


Este outro livro, também de 1914, passou por uma interferência razoável talvez nos anos 1960 e apresenta os cadernos ainda intactos.

Aquele que se diz encadernador faz um trabalho tão precário que destrói e mutila um livro e ainda tem coragem de cobrar por isso.

Tenho restaurado e encadernado livros antigos, velhos e recentes.

Quando um livro nunca sofreu nenhuma interferência o trabalho é muito fácil. Basta reparar os rasgados, reforçar as dobras de cada caderno, costurar os cadernos, elaborar a capa e o trabalho está feito.

Mas a maioria dos livros que tenho restaurado já passaram por mãos sem conhecimento e habilidade.

Estão sem nenhum restauro ou reparo das folhas. Estão serrados e amarrados. Cola foi aplicada em cima das dobras rasgadas dos cadernos, penetrando mais profundamente ainda, sendo penoso e danoso desmembrar os cadernos.

Esses livros estão simplesmente guilhotinados, com redução das margens e até com perda de texto, pois alguém não teve o capricho de reparar as avarias e manter o livro íntegro. Muitas vezes completamente torto!

O mau encadernador é capaz de muitos outros erros, como usar fita adesiva e mesmo fita crepe, jogar fora as etiquetas do fabricante original e as capas originais e as orelhas do livro, usar capas muito maiores do que o livro, colar o lombo falso na lombada interna do livro, costurar os cadernos sem serrotar o cortando o papel com a agulha, usar cola de sapateiro em material sintético e a cola se transforma em óleo e se desfaz.

O mau encadernador é um pesadelo para o livro e um pesadelo para o encadernador técnico e competente que depois precisa primeiro desfazer todos os erros cometidos para só então poder fazer o bom trabalho.

E vou dizer em desabafo:

NUNCA ENCONTREI NENHUMA ENCADERNAÇÃO PELO MENOS RAZOÁVEL EM TODOS OS MEUS ANOS DE TRABALHO.

Nunca me deparei com um livro bem refeito, seja de livros de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina ou Paraná. Lugares onde já atuei. Todos sempre precários, errados, feios e criminosos. Todos de uma pobreza atroz.

Sendo assim: PRENSA NELES.


21 de mar. de 2017

Onde Comprar Material de Encadernação

Desventuras de um encadernador
na busca de material de trabalho em Curitiba.

A cada dia que passa, minha cidade fica menor.
Largo da Ordem
Aquarela do Barbetta

Cada vez que fecha uma empresa.

Cada vez que vou comprar meu material de encadernação e aquela empresa não vende mais.

E assim Curitiba vai ficando cada vez menor.


Aconteceu com o papelão Coru. Feito de casca de arroz, tem muito mais densidade e rigidez do que o papelão cinza ou do que o papelão feito de material reciclado que está dominando o mercado. Aliás, esse papelão poroso e mole não deve ser realmente reciclado, mas papelão de baixa qualidade que se diz reciclado.

Sempre esteve à venda em todas as gramaturas na Casa do Sapateiro. Hoje só encontro os mais finos, usados para fazer bolsas.

Curitiba não tem um local onde comprar todos os materiais de encadernação, assim é preciso comprar cada um em um lugar diferente.

Papéis é na Santa Maria Distribuidora, que vende a granel e guilhotina se for preciso. Tem quase tudo em papéis no formato 66 x 96 cm, papelões comuns e algumas colas para gráfica.

Tecido em algodão cru para fazer tela e marmorizar, agora só tem na Rua Bley Zornig, lá no Boqueirão. Antes, encontrava retalhos a quilo nas casas de couro da Rua Dr Muricy, hoje só por metro e mais caro.

Colas tem que comprar em casa de tintas ou de materiais de construção, limitado a usar a cascorez extra em embalagem de um quilo, por ser a única de acidez tolerável. Ultimamente, estou pagando dezenove reais pela embalagem de um quilo na Tintas Virgínia. O preço é menor do que em qualquer outro lugar.

Fitas para reforço externo na dobra folha de guarda, encontro em uma ou outra loja de armarinhos.

Não tem nenhum lugar para comprar espátulas de osso ou de silicone. Quando encontro, só uma ou outra de silicone em loja de material de artesanato. Mas são caras, desconfortáveis e grosseiras, umas coisas quadradas e grossas, indicadas para finalidades diferentes da encadernação.

Couros, se tiver sorte e oportunidade, nas casas de couro da Rua Dr Muricy. Como a sorte é madrasta, raramente encontro o couro que procuro e preciso me contentar com aqueles disponíveis. Bom mesmo é comprar um couro flexível, fino ou grosso, que não parta nem escame e que aceite bem a cola branca. Só em dia de sorte. Assim, cada couro é um novo aprendizado de como trabalhar.

Nestes mesmos lugares, encontro fios para  costura. Linha de três fios encerados, de preferência. A Casa do Sapateiro voltou a vender papelão coru, em gramatura fina, vendido por quilo.

Vulcapel, só e unicamente na casa de couro do Schmuk, por enquanto.

Cera de abelha para encerar os fios de costura e às vezes passar em papéis tomados por fungo, só numa lojinha de materiais de construção ali na Mateus Leme. Já foi-se o tempo de comprar na Casa Vermelha ou no Senff Ferragens.
Arranjei uma cera boa na Feira de Inverno da Praça Osório, nas barracas que vendem mel.

Lembrei agora que já faz uns vinte anos que deixei de usar cola orgânica, aquela feita de gelatina animal e usada em banho-maria, por ter desaparecido inteiramente de todas as lojas de Curitiba. A última que encontrei, justamente no Senff ali atrás da Catedral, estava tão suja e contaminada que os livros ficaram com cheiro de podre.

E não adianta nem perguntar se tem Alvaiade. Ninguém mais sabe o que é ou para quê serve. É um espessante usado até por Da Vinci, misturado com gelatina e outras coisas, para fazer suas telas de pintura.

Fita para douração é um parto. Só havia a Personalizze, ali no Rebouças, mas fechou (Fechou coisa nenhuma, está no mesmo lugar e agora mesmo voltei de lá com a fita de ouro que eu precisava!) Estou com esperança de encontrar numa empresa ali na Mateus Leme, a Tegape,  e amanhã vou procurar. Se não encontrar, não sei a quem recorrer. (Eles tem só o rolo de 60 centímetros de largura, todas as fitas com fundo prata, mas atendem que é uma beleza e não servem para o meu trabalho).

Isso tudo sem falar de onde encontrar ferramentas de encadernação em Curitiba. Simplesmente ninguém sabe sequer o que é um brunidor, não existe estilete largo com guia de metal, só tem lâminas quebradiças da China...   

E assim ficamos. Cada dia menores em Curitiba.

19 de mai. de 2015

Capa Dura e Encadernação Clássica - Diferenças

Diferenças entre a técnica de “CAPA DURA COMERCIAL” e ENCADERNAÇÃO CLÁSSICA de folhas soltas.

No trabalho de encadernador e restaurador clássico, também tenho feito encadernações mais simples com material sintético. Comecei por insistência de clientes.

Depois de restaurar todo o acervo de livros manuscritos antigos e em todos os outros livros cuja importância merecia o uso de couro, sobraram aqueles livros menos manuseados mas de conservação obrigatória e por tempo indefinido. Justamente os livros recentes feitos por impressora, em folhas soltas no formato ofício A4.

A bem da verdade, não é correto denominar esses volumes de "livros”, sendo muito menos apropriado denominar o trabalho como de “encadernação”. Como são FOLHAS SOLTAS, o correto é chamar de “BLOCAGEM”.
Miolo pronto de blocagem de folhas soltas


Encadernar é costurar cadernos. O resto é enganação de cursinhos rápidos.

A técnica comum usada nestes volumes é a mais simples e básica. É utilizada em volumes para monografias, teses, trabalhos de conclusão de curso, livros contábeis e qualquer outro que envolva folhas soltas.

É mais conhecida como CAPA DURA, por óbvias razões, sendo amplamente utilizada na encadernação comercial.

Sob o ponto de vista da encadernação clássica é a “técnica sem nenhuma técnica” , a “encadernação bastarda” e a desvalorização do trabalho de encadernador, pois custam muito pouco e duram muito menos.

Aplicando técnicas de encadernação clássica ao trabalho de Blocagem de Folhas Soltas, acabei por consolidar um conjunto de procedimentos que resultam em livros mais duráveis, muito mais resistentes e até mais bonitos, apesar de usar quase os mesmos materiais da CAPA DURA.

E pretendo descrever cada etapa do processo.

  

1 - Miolo


Miolo ou as folhas soltas do livro propriamente dito.

Organizo as folhas e acrescento duas folhas em branco no início e no fim do livro, do mesmo tipo e marca do volume. Com o tempo as folhas evaporam e amarelam por igual. Servem para proteger as primeiras e últimas folhas do livro em si, evitando que amassem, sanfonem ou manchem por proximidade com a cola e o papelão da capa..


E, MUITO importante: Jamais uso guilhotina, nunca refilo os lados das folhas. Jamais!

O outro método não acrescenta nenhuma folha.

2 – Amarrando as folhas soltas


Faço serroteado, com SETE cortes, os primeiros de cada
Serrotado e amarrado, com tira de tecido  
lado inclinados em direção ao centro do livro.

Aplico cola em toda a lombada. Faço amarração dupla. Aplico novamente cola. Reforço a lombada com diversas camadas de tiras de papel e finalizo com uma tira de papel marmorizado.

A outra técnica apenas fura quatro ou cinco vezes com furadeira elétrica e amarra, passando cola na lombada.

3 – Reforço de Tecido

serrotado, com folha de guarda e tecido e arrematado

Insiro uma tira de tecido fino e não sintético na amarração próxima à cabeça e outra próxima ao pé do livro.

Este detalhe é o que realmente segura o miolo à capa, impedindo que o miolo caia ou que a folha de guarda se rasgue.

A técnica comercial não usa nenhum reforço.


4 - Colocação da Folha de Guarda

tres fases vistas pela lombada

Sempre passando cola, faço a tira de tecido ficar por cima da folha de guarda, que é profundamente colada sobre os fios de amarração.

A técnica comercial apenas cola a folha de guarda diretamente sobre a primeira folha que faz parte do livro, sem nenhum reforço.

5 – Corte da Capa


Corto o papelão da capa com cerca de tres milímetros a mais do que o miolo nos tres lados. Corto o lado ao longo da lombada com cinco milímetros a menos do que o miolo e faço um pequeno corte nos cantos internos, ou lado esquerdo, da capa.

A técnica comercial corta o papelão muito maior, não deixa espaço perto da lombada e nenhum corte nos cantos.




capas lixadas, unidas e lombada falsa

6 – Lixamento do Papelão


Lixo todos os OITO LADOS OU BEIRADAS e os quatro cantos do papelão.

Não deixo nenhuma superfície cortante e arredondo os lados, para que o material de acabamento envolva perfeitamente o papelão e a cola penetre em toda a superfície. Assim o material de acabamento não sofre dano resultante do fio cortante do papelão.

Para a encadernação comercial, lixar as bordas do papelão é perda de tempo.

7 – Lombada Falsa


Uso sempre apenas uma tira de papelão tipo kraft até 350 gr. para fazer qualquer lombada falsa, independente do tamanho do livro. Fica mais maleável e não força o material de acabamento.

A encadernação comercial usa lombadas falsas da mesma espessura do papelão das capas. Tentam disfarçar outras imperfeições, dando a ilusão de solidez, mas apenas serve para dificultar a ação de abertura, provocando um efeito de alavanca que desgasta e rasga o material de acabamento.

8 –Capa


O método “a la Brandel”, ou fazer encadernação do miolo e da capa em separado e depois juntar é o único usado na encadernação comercial. É mais rápido e prático.

Tiro as medidas da capa no miolo e junto as duas capas e a lombada falsa através de uma tira de papel kraft fino.
interior da capa, note-se o empastelamento


O papel kraft tem fibras longas e resistentes, mas é muito ácido e seu uso deve ser limitado em áreas que não atinjam as folhas brancas do volume, que ficariam manchadas em pouco tempo.

Neste momento, se o volume é muito grande, colo uma tira de tecido por dentro da capa, na cabeça e no pé da lombada.


Em tempo, o papelão deve ser empastelado, ou seja, passar cola aguada no lado de dentro do papelão e colar uma folha de papel, para prevenir o empenamento.

A encadernação comercial mede as distãncias e cola o papelão e a lombada falsa diretamente no material de acabamento, que pode ser vulcapel, tecido ou papel fantasia. Não usa nenhum reforço.


Finalizando


A partir desse estágio, só falta aplicar o material de acabamento. Uso frequentemente o Vulcapel, que é apenas uma folha de papel com uma camada de plástico colorido. É muito frágil e perde o brilho em curto prazo, mas pelo menos é lavável.


São estas as principais diferenças 

entre os livros que faço e aqueles feitos 

por qualquer outro encadernador. 

Como qualquer trabalho de qualidade, exige mais tempo de mão de obra e um ou outro material diferente, custando apenas um pouco a mais do que os trabalhos comuns.

Mas é assim que qualquer encadernador deveria trabalhar, Com mais conhecimento. Com técnica mais apurada. Com respeito pelos livros que recebe.

O cliente não pode ser enganado com encadernações que se desfazem logo que são colocadas na prateleira, que não resistem ao mais simples manuseio e que nem sequer ficam em pé sem apoio.

Toda essa técnica está descrita e prescrita no meu trabalho de NORMAS TÉCNICAS DE ENCADERNAÇÃO que tenho oferecido e sugerido que seja adotada para o bem dos livros, para tranquilidade dos clientes e, principalmente, para valorização do trabalho do encadernador.



Atelier. Como fotografar sem todo esse reflexo nos vidros...


30 de nov. de 2011

Encadernação

A boa técnica de encadernação clássica  implica numa sequência de procedimentos realizados de maneira correta e segura.
Com a banalização do livro nos últimos quinhentos anos, banalizou-se também a técnica, ficando reservada aos livros de grande valor bibliográfico ou documental.
Novos procedimentos passaram a ser adotados nos livros comuns, bem como novos materiais. O Encadernador passou a exercer outros ofícios, como o de Restaurador e de Dourador, na tentativa de agregar valor à sua atividade.
A grosso modo, identificamos que existem atualmente três escolas, ou vertentes da Encadernação. A Clássica, a Decorativa e a Comercial.



Clássica de Florindo & Costa
A Encadernação Clássica


Aquela onde são utilizadas técnicas manuais demoradas e elaboradas, com utilização de materiais nobres e absoluto respeito à obra encadernada. 


A Encadernação Decorativa


Bela e apropriada "Contemporânea" de Sergio Pitol,
Utiliza-se de princípios elementares da encadernação clássica, privilegiando o efeito decorativo segundo preferências pessoais do encadernador, a partir de sua etnia e cultura particular ou das tendências e modismos de seu tempo. É também chamada "Encadernação de Arte" ou "Contemporânea" e faz uso indiscriminado de materias nobres e sintéticos.



Comercial
A Encadernação Comercial


Conjunto de técnicas básicas que se utiliza de materiais sintéticos e privilegia o baixo custo e a padronização, indiferente ao conteúdo e valor da obra encadernada. Atende à demanda por livros didádico-acadêmicos, fiscais e obras populares.
São suas características a fragilidade e o baixo custo.

Com a banalização da arte de encadernar, vem ocorrendo a perda de seus valores básicos e a confusão entre estas três escolas de encadernação.

Encadernação mista

Imitação de Clássico, A.Solarov
Encadernações que meramente imitam o design clássico, com aplicações de ferros, marcações e dourações sobre material sintético.



Ao confrontar qualquer pessoa que se utiliza regularmente de serviços de encadernação, enfrento o pior inimigo de todos os encadernadores: A IGNORÂNCIA. 

Tenho constadado que o cliente, seja ele um bibliófilo, um cartorário e qualquer pessoa leiga, não tem a menor idéia do que seja um "livro" e o que seja "encadernação" pois até então conhece somente encadernações comerciais frágeis e efêmeras.


Prova dessa realidade é demonstrada num vídeo recentemente divulgado, mostrando um livro sendo desmontado, reparado, costurado, recebendo indefectível cabeceado e uma capa em tecido.

É necessário alertar aos meus clientes e amigos, que essa não é a técnica clássica de restauração. É uma técnica de reparação, parcialmente correta.


Utiliza-se de diversos procedimentos inadequados, como:
* Passar pó de borracha para limpeza diretamente com as mãos, transfere ao papel a gordura dos dedos.
*  Aplicar papel de arroz diretamente sobre o texto com cola ácida, aparentemente de base PVA.
*  Usar tiras de tecido coladas e enrroladas, para a costura, que são muito abrasivas e ferem as folhas frágeis do velho livro.
* Colar a folha de rosto nova diretamente ao longo da lateral da primeira e da última folha do livro, provocando o sanfonamento da primeira folha do livro.
*  Bater a lombada de um livro de folhas frágeis e quebradiças e DEPOIS de colar.
Cabeceado grosso
*  Costurar o cabeceado com grossos fios abre brechas para entrada de poeira, insetos, umidade e acelera o ressecamento do papel.
* Usa folha em branco para a guarda, mas deveria ter usado uma folha de guarda envelhecida e da mesma cor do resto da obra ou uma folha marmorizada, protegendo o livro da acidez das colas da capa.
* Rejeitou o couro original e usou o papelão velho. O couro original precisa ser conservado, mesmo um fragmento, e é adequado usar papelão novo para dar mais estrutura ao livro. Mas não! Jogou o couro fora e usou o papelão!
* A jovem trabalha com pó de borracha e limpa com escova SEM NENHUMA PROTEÇÃO.
* Por fim, dá acabamento ao trabalho com TECIDO comum, que não respeita a integridade da obra centenária, nem sua história. Seria obrigatório usar couro parecido com o original.


Não sei a origem do vídeo, sem som, e acredito que os encadernadores não tiveram a pretensão de que esse fosse um trabalho de restauração. É apenas um trabalho de conserto, provavelmente de orçamento limitado. 

Limpando com Proteção

reliure classique
classic bookbinding


 

13 de set. de 2010

Uma folha e sete erros


Uma única folha de um livro oficial foi vítima de, no mínimo, sete erros graves.
Cada ato humano praticado sobre essa folha, reduzindo-a a este estado lamentável, tem como explicação o pouco caso com um documento público, a ausência de técnicas de encadernação e o despreparo das pessoas que manusearam o livro desde 1934.
Este livro, iniciado em 1934, sendo feito com papel inglês de excelente qualidade, de folhas finas e resistentes. Sofreu pelo menos uma interferência de re-encadernação, em data incerta, talvez início dos anos 70, provavelmente, pelas oficinas do SENAI em Curitiba, por etiquetas que encontrei em alguns outros.
Outros erros poderiam ser acrescentados.
Por exemplo, todas as marcas do livro original, como etiquetas e dourações,  não foram conservadas.
Outro erro: os livros foram recosturados sem restauro das folhas. Assim, a cola (cola vermelha feita para fazer blocos!) usada na lombada da nova encadernação penetrou profundamente nos rasgões, tornando a abertura do livro forçada e ainda mais difícil desmontar o livro para fazer o trabalho corretamente.
Por incrível que pareça, ainda há outros erros, mas vamos combinar focar atenção só nessa folha.
*
1 - Fita plástica auto-colante (durex)
De forma muito tosca e canhestra, grudaram fita adesiva para prevenir que a dobra na folha se tornasse um rasgão. O resultado é a oxidação da área atingida e a destruição da fibra do papel.
O detalhe é que a fita adesiva já estava se soltando e não está mais ali. Se fosse recente, não poderia ser retirada sem danificar o papel e levar junto o texto. No médio prazo, qualquer fita adesiva perde aderência e se despreende do papel,  deixando uma matéria oleosa sobre o papel.
2 - Esta folha foi colada diretamente na folha de guarda - que é a folha dupla que fica presa à capa do livro - cujos restos mais brancos ainda são visíveis. A cola avançou quase dois centímetros sobre o papel. Assim, essa folha ficou presa , acompanhando o movimento da capa, que foi o que realmente causou a grande dobra atravessando a folha de alta a baixo (2.a).
3 - Dobras resultantes do manuseio do livro, selecionando folhas pelo canto inferior. É também causado pelo item anterior.
4 - O uso de tinta vermelha para colorir a lateral das folhas é uma prática iniciada por monges medievais que buscavam o efeito de imitar o "sangue dos mártires". Aqui foi usada tinta comum em excesso, na tentativa de disfarçar os dentes da guilhotina, tendo penetrado fundo na folhas.
5 - O livro foi GUILHOTINADO nos três lados, pois as laterais estavam puídas e sujas pelo manuseio e não foram devidamente restauradas. Portanto foram simplesmente cortadas. O livro ficou torto, com diferença de 0,4 mm no lado esquerdo e de 0,06 mm na parte de baixo. Além disso, a retirada de cerca de um centímetro em cada corte deixou o texto de algumas folhas perigosamente próximo do final da folha e em alguns casos, o texto foi cortado pela guilhotina. Em museologia, isso é mutilação.

Na boa técnica de encadernação clássica, UM LIVRO JAMAIS DEVE SER REFILADO.
6 - Por via das dúvidas, o anterior encadernador escreveu com tinta esferográfica, em letras enormes, o número do livro. Desnecessário, infantil e interferência injustificável num documento público.
7 - A folha de guarda que estava sobre essa, era composta de uma grossa folha de papel barato, semelhante aos antigos papéis de embrulho. Sem nenhuma tinta de marmorização que a protegesse deste papel inferior e mesmo da cola que uniu a folha de guarda à capa, a nossa pobre folha foi atacada pela elevada ACIDEZ do papel e da cola, ficando com essa coloração marron escura em toda sua área. Outra consequência da acidez é o ressecamento da folha, muito adiantado, mesmo considerando sua idade.
Tivesse usado papel de boa qualidade e marmorizado para a folha de guarda
usando ainda pelo menos duas folhas em branco em seguida, a folha oficial estaria protegida e duraria muito mais.
*
Espero que esse artigo sirva para mostrar o que não se deve fazer. 
*
O mais grave é que todos os livros do acervo foram trabalhados pelo mesmo método e apresentam deterioração até maior do que esse exemplo.
Adiante, prova de guilhotinagem:

27 de jul. de 2009

Livro para o Pó, de John Fante.


Parece que beatnik está na moda entre algumas pessoas, tanto que ressuscitaram Fante, aquele que nunca devia ser esquecido. Motivado pela curiosidade, fui comprar o livro dele "Pergunte ao Pó", perguntei na Livraria Curitiba do Estação, sentei um pouco para ler e gostei de cara da introdução de Charles Bukowski. Recomendador de primeira. Li um pouco do início e logo vi que era coisa de primeira qualidade. Parei de imediato. Leitura boa é para ler com calma e não no burburinho.

Decisão tomada, fui até o caixa. Inexorável, a moça pôs peço no prazer: R$.31,00 (TRINTA E UM REAIS).

Aí, acenderam-se as lamparinas de meu juízo.

"Trinta e um reais por essa publicação vagabunda! Capinha de papel mole sem orelhas! Folhas do mais barato e vagabundo papel de embrulho que a Editora José Olympio conseguiu comprar! Tão vulgar que já vem amarelado! Troço molemolente na mão da gente!"

Tende paciência! Gostei com certeza, tanto que não me dei conta do que tinha nas mãos. Mas, comprar um bom texto num livro péssimo e ter que testemunhar o pobre se deteriorando rapidamente perante meus olhos, ali na prateleira! Isso não!

Esse pova da editora, o que será que eles acham que a gente faz com livro? Lê escondido, envergonhado, depois vende a quilo no sebo? Lê e joga fora? Lê e recicla? Dá de presente sem ler e sem vergonha?

Gente, livro é para ler e guardar. Para emprestar a quem queremos bem! Para ler de novo daqui a dez anos! Para todo mundo aqui em casa poder ler e o livro ainda fica inteiro.

Cândido, ainda perguntei para a moça que pôs preço no prazer: Não tem uma outra edição melhorzinha? Mesmo mais cara? Tem não.

Não tinha. Não estou num país civilizado que edita livros em capa dura também, para quem tem uma estante onde guardar, que gosta de ter o livro para ao menos olhar as letras da lombada de vez em quando.

Se comprei? Não! Esse não! Vou procurar coisa de melhor qualidade, nem que leve tempo. E se você comprar, esconda quando chegar visita em sua casa.